quinta-feira, 1 de outubro de 2020

"O direito à literatura"(fragmento)

Apresentamos, de forma objetiva, a visão de Antônio Cândido, grande historiador, analista e professor de Literatura:
(...)
"Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações.
Vista desse modo a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação. Assim como todos sonham todas as noites, ninguém é capaz de passar as vinte e quatro horas do dia sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado. O sonho assegura durante o sono a presença indispensável deste universo, independentemente da nossa vontade. E durante a vigília a criação ficcional ou poética, que é a mola da literatura em todos os seus níveis e modalidades, está presente em cada um de nós, analfabeto ou erudito, como anedota, causo, história em quadrinhos, noticiário policial, canção popular, moda de viola, samba carnavalesco. Ela se manifesta desde o devaneio amoroso ou econômico no ônibus até a atenção fixada na novela de televisão ou na leitura seguida de um romance. 
Ora, se ninguém pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, a literatura concebida no sentido amplo a que me referi parece corresponder a uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito. (...)

(In: Vários Escritos, Ed. Duas Cidades, 2004.)

segunda-feira, 30 de março de 2020

Reflexão profunda de um Pensador

A literatura em perigo
(trecho), de Tzvetan Todorov:


"(...) A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão, quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver. Não que ela seja, antes de tudo, uma técnica de cuidados para com a alma; porém, revelação do mundo, ela pode também, em seu percurso, nos transformar a cada um de nós a partir de dentro. (...) 

segunda-feira, 9 de março de 2020

O Sagrado Masculino


Eu acredito em homens amorosos ​​e amáveis.
Eu acredito nos homens místicos que acreditam em si mesmos.
Eu acredito em homens que buscam temperança e paz dentro deles.
Acredito em homens poetas, sonhadores, mágicos, escritores, alquimistas, artistas, professores e anjos.
Acredito em homens que gostam de dançar, cantar e fazer da vida uma celebração.
Eu acredito em homens que abraçam sua criança interior ferida, ouvem-na e a abraçam de verdade.
Eu acredito em homens que querem curar e ajudar os outros a se curar.
Eu acredito em homens que se recusam a ser escravos de sua própria ferida e que, apesar da dor, eles a limpam e a curam pacientemente, com amor e coragem.
Acredito nos homens que vêm das estrelas e lembram o poder de suas asas, o poder de suas palavras, o poder de suas mãos e o poder de seus corações.
Acredito em homens que conhecem a intuição e a usam como bússola.
Eu acredito em homens que compartilham liberdade porque são livres e não conhecem outra maneira de viver.
(...)

Acredito em homens plenos que não precisam de nada do lado de fora porque já sabem que tudo está por dentro.
Eu acredito em homens que fazem fogo quando estão com frio, que se refugiam na água quando estão com sede.
Eu acredito em homens com olhos sinceros que podem se ver e é por isso que amam e respeitam todas as criaturas que existem na Terra.
Eu acredito nos homens, perfeitamente imperfeitos, porque é nessa imperfeição que eles também encontram suas forças.
Acredito no coração liderar homens que sabem como receber e dar amor em equilíbrio, que escutam e que também falam, aqueles que vivem plenamente.
(...)

Eu acredito em homens com sentimentos claros, acessíveis.
Acredito em homens com inteligência emocional, que se aprofundam, compartilham as partes mais profundas de si mesmos e vivem com honra.
Eu acredito em homens que andam descalços na terra e podem falar com as plantas.
Acredito nos homens mansos e selvagens ao mesmo tempo.
Eu acredito no homem sagrado e em toda a divindade que eles têm estado.


(filosofia de RISHIMA)

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Crônicas de um lugar esquecido

O colecionador de chaves

O personagem usava roupas pesadas, de cores escuras, recobertas por um capote surrado, bastante desbotado. Na cabeça, um chapéu de tecido negro, e no pescoço, um longo cordão de metal claro, onde se penduravam dezenas de chaves de tamanhos e formatos diferentes. Não sorria muito, mas quando o fazia, seus dentes e o cordão eram as únicas coisas que se destacavam em meio aos tecidos que o envolviam. Chegou no vilarejo numa noite de calor abafadiço, e meia lua embaçada no céu. 
Foi direto ao único bar local, ainda aberto já que nem era muito tarde. Sua entrada causou, é claro, um murmúrio curioso e carregado de desconfianças. Seus trajes, seu meio sorriso, o isolamento no balcão denotavam a todos sua decisão de querer estar só, isolado, longe de fofocas e especulações. O dono do bar ficou sabendo que ele iria passar apenas uma noite, e precisava de um lugar para dormir. Como há muito não ocorria, o homem disse que ele poderia usar um quartinho que tinha nos fundos, com a condição de ir embora logo pela manhã. Quando se recolheu, ainda pôde ouvir o ruído das pessoas que permaneceram comentando sobre sua aparição. 
O que mais intrigava os moradores do pacato povoado era a existência daquele molho de chaves, pendurado no pescoço do forasteiro. E que, a cada movimento do suposto colecionador, faziam um barulho de metal perturbador. Que chaves seriam aquelas? Que portas abriram ou abririam? Para que viajar com aqueles objetos à mostra, como querendo transmitir algum recado, alguma mensagem enigmática? Essas e outras múltiplas questões se instalaram nas mentes e bocas de todos quanto se importavam com sua presença. Em muitos anos, nenhum estrangeiro vinha até aquela terra esquecida. O único conhecido que regularmente aparecia por lá era o velho mascate. E que, nos últimos tempos, também tinha rareado suas passagens por ali. Muitos habitantes mal dormiram à noite, incomodados que estavam com aquela figura estranha de chaveiro. 
No outro dia, o dono do bar ficou espantado com o que percebeu. Nunca mantinha o quartinho trancado a chave, mas foi assim que a porta estava, quando tentou chamar pelo colecionador. Depois de mexer na maçaneta, ele voltou aos seus afazeres e deixou para indagar sobre aquilo mais tarde. O forasteiro surgiu no balcão do bar, sempre silencioso, e resolveu tomar alguma coisa, antes de se ir. Sem olhar muito para o peculiar personagem, lembrou que a porta do cômodo nem sequer tinha chave, e chegou à conclusão que o próprio colecionador a havia fechado, por dentro. Depois que ele pediu para permanecer mais um dia e uma noite no vilarejo, as suspeitas do proprietário aumentaram: aquele homem era um perigo, já que conseguia fechar e abrir qualquer porta com seu molho. E, mesmo concordando com a solicitação do mesmo, sentiu-se estimulado a dividir sua preocupação com outros amigos, que frequentavam o bar. 
Resolveram testar o caráter do rapaz, inventando problemas com fechaduras de portas e janelas de algumas casas. A todos, ele conseguia resolver, utilizando algumas das chaves que trazia, sempre penduradas junto a si. Por que nunca se separava delas, tirando o cordão de metal do pescoço? Isso também se misturava aos questionamentos dos moradores, alimentando mais suspeitas...
Não sendo de muita conversação e mantendo uma postura distante, enfeitada de dúvidas, o colecionador passou a ser mais temido que respeitado. Chaves podem ajudar a abrir objetos, casas, caminhos... Mas que tipos de fechaduras aquelas chaves já não teriam aberto? Por quais casas, caminhos, lugares revelados aquele rapaz teria passado? Seria somente ele o dono daqueles objetos metálicos, tão significativos e, ao mesmo tempo, tão amedrontadores? 
O alcaide chamou-o para uma visita, no intento de descobrir a origem do estrangeiro e o motivo de tantas chaves. Ele concordou com o encontro, desde que não tivesse que contar sobre sua coleção. Não era de falar muito, mas apreciou a bebida que o outro lhe ofereceu, e respondeu suas perguntas com monossílabos. Esse laconismo irritou o dono da casa, e também o fato de não conseguir saber sobre o molho. O homem saiu de lá tranquilamente, num momento de distração do seu interlocutor, que havia trancado a porta da sala, deixando-o admirado com a façanha. 
Para muitos, o forasteiro já tinha se demorado e causado preocupações o suficiente. Um grupo de moradores foi convocado para levá-lo até a saída da cidade. Quando iniciaram a perseguição ao homem, o mesmo fugiu e adentrou uma velha torre do sino, abandonada, que existia na entrada do povoado. A porta estava trancada, e passou a ser vigiada constantemente, até que o homem tivesse sede ou fome, e saísse de lá. Quando a noite caiu, um pesado ariete foi usado para arrombar a passagem. Para espanto geral, o colecionador de chaves não foi encontrado. Havia sumido, sem que se ouvisse sequer o ruído metálico de sua misteriosa coleção.

César Pavezzi

sábado, 6 de outubro de 2018

Crônicas de um lugar esquecido

O filho do rio

Depois da inundação ocorrida no ano anterior, aquele outono aumentava o mormaço, e a sensação de ventos quentes incomodava os habitantes do vilarejo, mais parecendo persistência de verão. Algumas mulheres, que usavam as pedras do rio para lavarem suas poucas roupas, também aproveitavam a água para se refrescar naqueles dias. Não havia cantigas, ladainhas ou ruídos verbais de suas bocas. A atividade era silenciosa, dando vez apenas ao barulho mínimo provocado pela correnteza mansa, entre as pedras e nos barrancos. Era um quadro rotineiro e monótono que se repetia todas as semanas, só não ocorrendo em dias de chuva ou muito frio. 
O cesto veio descendo, lentamente, justo pelo lado em que as mulheres permaneciam nas suas esfregações e bateções de roupas. Distraídas, preocupadas em terminar logo o trabalho, demoraram-se a perceber que o balaio continha alguma coisa viva, que se movia e emitia um vagido, quase um choro, mas mais suave e balbuciante. Uma delas conseguiu, jogando um lençol enrolado, trazer o recipiente para perto. Quando olhou em seu interior, havia uma criança, muito pequena, corada, olhos vivazes e curiosos, movendo insistentemente mãozinhas e pezinhos bem feitos. Aquilo causou um alvoroço total no grupo, que, entre incredulidade e espanto, não sabiam exatamente o que pensar. De onde teria vindo aquele anjo, aquele inocente? Quem teria abandonado tão linda e saudável criaturinha? Era um milagre que não houvesse caído do cesto e sido devorado por algum animal do rio ou das margens... 
Depois de constatarem que era um menino, levaram o cesto para a cidade e, como já esperado, o acontecimento se espalhou como rastilho de pólvora, na comunidade inteira. Todos começaram a chamar o menino, em suas conversas e referências ao acaso admirável daquele dia, de "filho do rio". Mas o significado daquilo começou a ecoar nas mentes de todos os adultos do lugar como algo que traduzia certas crendices e superstições, típicas da mentalidade local: seria o menino o fruto de uma premonição positiva, de bom agouro? Ou esse aparecimento denotaria maus presságios? Começou-se um boato de que uma criaturinha tão bonita e saudável, ao menos na aparência, não poderia ser portadora de más novas ou fatos ruins. Ao contrário, somente deixava transparecer bondade e felicidade, naquele semblante angelical, do qual emanava vívida pureza. 
Até que, uma semana depois, tendo ficado aos cuidados da mulher que puxara o cesto para a margem, começaram a ocorrer estranhas mudanças no comportamento das pessoas que faziam parte daquela família. Numa discussão mais acirrada com o marido, por conta da falta de comida, o homem foi acometido de um mal súbito e não conseguiu sobreviver, mesmo sendo forte e jovem. Ninguém entendeu aquela morte. Detalhe inusitado: mesmo no velório do pobre homem, o bebê mantinha, o tempo todo, um sorrisinho maroto na face. Depois disso, ainda impactada com o fato, a mulher passou a guarda do "filho do rio" para outra família. E assim, em cada casa onde o menino era recebido, sempre acontecia algo negativo, enchendo os familiares de desconfianças, pois nunca, desde seu achado na beira do rio, o garoto tinha chorado. Somente se desenhava em seu rostinho aquele sorrisinho perturbador, mesmo nas ocasiões mais fúnebres. 
O alcaide, por fim, resolveu se responsabilizar pela criança, e o adotou. Quando tentou dar-lhe um nome, o menino, contrariando sabe-se lá qual lei da natureza, pareceu estar encarando o tutor nos olhos, com uma expressão séria, sem sorrir. O alcaide e sua mulher, absolutamente aterrados, aumentaram seu estupor ao ver que, depois desse momento, o tal "filho do rio" voltou a exprimir aquele sorrisinho provocador novamente. A esposa passou mal, teve um desmaio prolongado e, depois de muita abanação e tapinhas no rosto, voltou a si, completamente amedrontada. O marido não teve dúvidas: o rio trouxe, o rio leva. Ninguém mais voltou a falar sobre o menino, depois que o cesto foi visto levado, novamente, pela correnteza do rio.

César Pavezzi


sábado, 4 de agosto de 2018

Crônicas de um lugar esquecido

A caixa dos sinais

Foi num dia morno de outono, depois de um período grande de estiagem, que a caixa apareceu, do nada, bem no jardim central do vilarejo. O lugar modesto, numa área circular, com pouca vegetação rasteira, flores miúdas e vulgares, era cuidado pelos próprios moradores do entorno, se mantendo limpo e arejado. A caixa se destacava no meio da vegetação por ser escura e envolvida em metais foscos. Chamou a atenção de um dos andarilhos do lugar, que, em muitas noites, dormia por ali ao relento. Logo de manhã, a pequena multidão se juntou e começou a especular sobre o conteúdo da caixa. Tentaram movê-la, mas era muito pesada, como se estivesse pregada ao chão.
Havia uma inscrição pequena, do lado de fora, que indicava a data e a hora, com desenhos estranhos, de quando a caixa iria se abrir. Mesmo com isso, foram chamados ferreiros, serralheiros e chaveiros, para tentar resolver a questão da abertura, mas tanto os metais como o material de que fora feita não permitiam qualquer arranhão ou acesso ao seu interior.
Todos ficaram intrigados com tudo aquilo. Ninguém sabia dizer ou tinha visto como aquele objeto pesado e resistente havia ido parar no centro do vilarejo. Nenhuma notícia de quem o trouxera, carregara ou deixara ali, a vista de todos e com todo aquele mistério.
Foi o assunto do dia, da semana, e a caixa não foi aberta por ninguém, muito menos movida. A ansiedade deu lugar à paciência, já que o foco agora era a data e o horário em que ela se revelaria a todos. O que haveria dentro? Algum tesouro, mapa, documentos de alguém, indícios de alguma herança ou riqueza esquecida? Ou estaria vazia e com instruções sobre o que guardar nela? Esses eram os temas que circulavam nas cabeças e bocas do lugar... No bar, nas casas, nas ruas, nos cantos e esquinas daquele vilarejo.
Na semana seguinte, numa tarde de ventos quentes que sopravam, e ainda derrubavam muitas folhas e faziam poeira por ali, alguém percebeu um ruído vindo da tal caixa, e correu a avisar outras pessoas, para que viessem. Tão rápido como o ruído cessou, muitos se amontoaram em torno da caixa, preparados para, finalmente, presenciar a tampa se abrindo. Mais alguns rangidos secos, meio surdos, e a tampa se levantou vagarosamente. O alcaide fez as honras e, após olhar em seu interior, constatou que somente havia uma placa, com o mesmo material escuro e resistente da caixa, depositada no fundo desta. Pegou com cuidado o objeto e soprou a poeira que o recobria, colocando à mostra uma mensagem em letras prateadas, escrita na pequena placa.
"A ÁGUA TUDO LAVA E TUDO LEVA..."
Que significava exatamente aquilo? Além do mistério daquele aparecimento, do desconhecimento daqueles materiais que a compunham, por que a tal caixa trazia essa mensagem, que mais parecia um sinal de presságios? Palavras simples, porém encharcadas de profundeza e temeridade...
O alcaide levou a placa para casa e, no dia seguinte, a grande caixa sumiu. De forma tão estranha e oculta como quando surgiu. A mensagem, porém, foi objeto de conversas e dúvidas entre todos do lugar. Naquela mesma tarde, depois do sumiço, o ar ficou pesado, as nuvens se adensaram e o vento se tornou mais forte. Uma grande tempestade se anunciou, deixando o dia escuro e tenebroso.
Mas não caiu sobre o vilarejo, ao contrário, atingiu a cabeceira do rio que ladeava a cidade. E fez com que ele fosse crescendo, se avolumando de tal forma, que as águas começaram a subir e entrar pelas ruas do vilarejo. Iam lavando e levando, de roldão, tudo o que encontravam pelo caminho. As pessoas mal tiveram tempo de subir nas partes mais altas dos edifícios, e dos morros que se avizinhavam. A rapidez da inundação permitiu apenas que a pequena população se salvasse. A chuva durou três dias inteiros, e devastou a maior parte do pequeno lugar... Surgiram especulações sobre castigo divino, outras sobre a caixa ser uma maldição ou coisa parecida. Para coroar as dúvidas não satisfeitas, depois que o rio baixou e a água se foi, a placa também desapareceu da casa do alcaide. 

César Pavezzi

sábado, 7 de abril de 2018

Crônicas de um lugar esquecido

O bicho e o pescador

Foi num dia em que os peixes do rio que ladeava o vilarejo começaram a rarear, talvez por conta da mudança de estação, que o único pescador do lugar estranhou a presença daquele vulto enorme, que parecia observá-lo por detrás de moitas, do outro lado, na outra margem. Em vão, tentou divisar melhor se era uma pessoa alta, corpulenta, ou algum bicho desconhecido naquela região. Quando voltou a se concentrar na pesca que tentava realizar, o vulto sumiu. Ele bem que olhou por repetidas vezes e em várias direções, intrigado com aquela presença estranha, mas nem sombra.
Uma semana depois, a vegetação do outro lado traiu o movimento da criatura, e o homem pôde perceber que não se tratava de ser humano, mas sim de um animal grande. Porém, como da outra vez, ele ficou observando o homem lá de longe, perto da mata, e acabou por se afastar. Talvez por receio de que fosse rechaçado ou ferido pelo pescador. 
Depois de algumas aparições, por inteiro, mesmo de longe, o homem teve a certeza de que o animal era um urso, com pelo marrom escuro, estatura alta e imponente. Quando o mesmo ficou mais próximo da margem, e até pisou nas águas do rio, o velho pescador compreendeu duas coisas evidentes: o bicho tinha fome e se alimentava de peixes. Seu coração foi tocado por essas coincidências naturais que os unia. Tanto que, com um olhar mais demorado e apurado, conseguiu notar que o urso estava magro e fraco, mal conseguindo se manter ereto nas patas traseiras. 
A aproximação dos dois foi se fazendo de maneira lenta e curiosa, ambos se estudando e instintivamente procurando formas de não se estranharem ou se atacarem. O pescador, sabiamente, se lembrou que a mão que alimenta é a mão que ganha confiança... E começou a dividir os poucos peixes que conseguia do rio com o animal. Entre eles, então, surgiu um arremedo de amizade.
Muitas semanas depois, quando a lua mudou, uma noite de susto para o homem: o urso o havia seguido, depois da pesca, e estava dormindo no quintal de sua casa. E isso se repetiu por várias noites. Como o animal fosse silencioso e se esgueirasse por entre as sombras do vilarejo, quase ninguém notou. E se notou, ele passava somente como um vulto a mais, nas noites do lugar.
Até o dia em que, se sentindo ligado à companhia do pescador, o urso veio procurar comida na sua casa, assustando os vizinhos e outros moradores, que propuseram sua captura, ou como diversão ou para aproveitar sua pele, uma vez que o inverno chegaria logo naquelas paragens. Formou-se então, um verdadeiro pandemônio, por conta da perseguição que promoveram ao urso. O bicho, por força da quantidade de pessoas que o caçava, não quis confronto e preferiu fugir para as bandas do rio. 
O velho pescador já tinha deduzido isto, e quando o animal chegou na margem, ajudou-o a entrar no seu barco. E sem pensar no prejuízo que teria com sua atitude, empurrou o mesmo para a correnteza e deixou que o rio fizesse a sua parte. A turba barulhenta e excitada que chegava, só teve tempo de ver o vulto do bicho, que deslizava distante, salvo pelo amigo que queria preservá-lo de tudo aquilo.

César Pavezzi

sexta-feira, 16 de março de 2018

Crônicas de um lugar esquecido

A casa sem portas e sem janelas

Dizem que janelas são os olhos de qualquer casa, por onde se pode avistar coisas exteriores... Ou, inversamente, servir de entrada para olhares indiscretos, curiosos, invasivos. Assim era aquela moradia estranha, em que o construtor, seu próprio habitante, tinha-a feito sem portas e janelas. Não achou necessidade de colocar tais barreiras ou, como muitos querem, recursos de segurança e privacidade. Num lugar onde roubos e furtos não aconteciam, e onde todos ainda tinha pudores e reservas, quanto à intimidade, era fácil viver numa casa como aquela.
O maior estranhamento, porém, residia no fato de que somente a casa do homem, que havia colocado portas e janelas em todas as outras que construíra no vilarejo, não tinha esses acabamentos. Como sempre fora justo ao cobrar pelos serviços que realizava, encontrou nos poucos cidadãos do lugar um respeito e muita compreensão por essa atitude diferente...
Ninguém invadia a casa, ou manifestava intenções de conhecer o seu interior, em todos aqueles tempos. Havia na mente de muitos a desconfiança de que podiam acontecer coisas misteriosas e assustadoras no seu interior. Crianças então, que tem um instinto natural de curiosidade, sequer passavam em frente à construção. Surgiam boatos de que o homem dominava seres e energias misteriosas com os quais convivia, em especial à noite, quando a escuridão só permitia ver alguns poucos acenderes e apagares de lumes, em muitos dos cômodos da casa. O que seriam aqueles brilhos e luzes foscas? Nenhum dos que já tinham visto ousavam questionar diretamente ou investigar junto ao construtor solitário.
Enquanto viveu ali, sem ter suas particularidades compartilhadas, o homem continuou a levar sua rotina de ajudar as pessoas a construir suas casas e manter uma postura discreta. Se falava, era apenas para concordar sobre um combinado ou outro relativos ao serviço, e sobre algum caso breve, envolvendo outras moradias que se lembrava ter levantado. E sempre se recolhia ao anoitecer, com seus lumes e brilhos, tão discretos quanto seu jeito de viver. 
Quando, um dia, o homem sumiu, alguns vizinhos resolveram entrar na casa para tentar entender o acontecimento inexplicável. E se maravilharam ao constatar que o construtor fazia experiências com pirilampos, mariposas e várias espécies de insetos que emitiam brilho nas noites. Havia muitas plantas e flores onde os mesmos se abrigavam e se alimentavam, livremente. E todos começaram a compreender, emocionados, porque ele tinha a necessidade de não impedir a entrada dos bichos em sua casa, já que significavam consolo e companhia no breu das horas.

César Pavezzi

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Crônicas de um lugar esquecido...

Estação onde a esperança não chega

E tinha o menino, tímido, retraído, porém com uma ansiedade desvelada, sempre presente no modo lacônico como se comunicava. Cresceu ajudado por pessoas do lugar, de favores, comiseradas que eram por sua situação de abandonado. Pai não tinha, e mãe havia sumido misteriosamente numa noite em que, numa crise de identidade, largara tudo e se mandou do lugar sem ser percebida. Nessa época, o menino tinha três anos... Havia tanto sossego e silêncio naquela casa que só foram perceber que o pequeno tinha ficado sozinho uma semana depois do fato. Como ele sobreviveu, ninguém sabe, talvez por puro milagre (se é que milagres existem nessa terra...).
Depois da casa do senhorio que o descobriu, por conta de cobrar o aluguel, o garoto passou por um revezamento de lares, já que era estranho ter que se responsabilizar por um filho sem pais. E com o auxílio, umas vezes improvisado, outras vezes negado, o tempo foi passando rápido, e vamos encontrá-lo agora com dez anos de idade. Com a saúde emocional fragilizada, sua vida sofrida foi um pouquinho iluminada por algo bom, ao qual ele se agarrou com todas as forças, como um ideal.
Havia uma velha senhora no vilarejo que fazia as vezes de professora. Comovida com as condições pouco ou quase nada adequadas do menino, resolveu acolhê-lo entre seus pequenos alunos, para que aprendesse minimamente a ler e a contar. Problemas existenciais a parte, ele se revelou um ótimo aprendiz, compreendendo rapidamente os conhecimentos básicos transmitidos pela mulher.
Seus olhos brilharam e seu coração bateu mais forte quando, certo dia, deparou-se com um antigo e desbotado livro de histórias, que mostravam meios de transporte modernos, em que havia uma grande e bem desenhada ilustração de um trem. Um trem, a todo vapor, cortando o vale, com sua locomotiva e seus vagões imponentes, quase chegando a um vilarejo também desenhado na paisagem do livro.
A partir daí começou a sua insistente e ansiosa esperança a carregá-lo, todos os dias, para a saída da cidade, pois tinha ouvido boatos de que, desde há muitos anos, muitos esperavam que aquela possibilidade de progresso, poderia por fim ao isolamento perene do vilarejo. Seu coraçãozinho de menino passou a sonhar com a estação construída e, mais intensamente, com a chegada da máquina potente e veloz, trazendo outras pessoas e levando os viajantes para outras terras. No fundo, mesmo sendo um ilusão tudo aquilo, seu compromisso com o lugarzinho onde se sentava e esperava, todos os finais de tarde, era motivado por aquela esperança, costurada nas camadas mais profundas do seu subconsciente, de que a mãe voltaria para o vilarejo. Ele antevia a mesma acenando da janela do trem, descendo para a plataforma da estação e correndo, emocionada, na direção do seu abraço. Ninguém que o conhecia tinha coragem de tirar isso do menino, e nós sabemos porquê.

César Pavezzi

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Crônicas de um lugar esquecido...

Uma mãe que não era

Lá vinha ela novamente, pela rua central do vilarejo, empurrando a materialização de suas lembranças loucas e sofridas. Loucas porque faziam com que representasse um personagem surreal, exótico, forçado e desbotado. Sofridas pela assunção de sentimentos desvairados, porém convictos, que lhe acrescentavam um ar de coisa pouco humana.
Trazia nas vestes e no semblante as marcas de um tempo gasto numa procura inquieta de transformar em realidade aquilo que não podia ser... Marcas cada vez mais profundas de sua miséria emocional misturada com uma aparência de animal agitado e ansioso.
Percorria as ruas do vilarejo, do nascer ao poente, da mesma forma como fazia há muitos anos. Alguns revelavam já tê-la visto vagando também pelas noites frias e madrugadas silenciosas do lugar. Arrastava os pés numa sandália baixa, estropiada pelas caminhadas sucessivas e insistentes. Procurava o quê, aquela criatura? Sempre vagarosa, como uma lesma, e fechada na sua angústia. E nessa carapaça lenta e misteriosa, empurrava adiante, um carrinho de gêmeos. Sempre o mesmo carrinho duplo, ensebado e rasgado pela ação do tempo, sem nada dentro. Somente o vácuo de duas criaturas que nunca existiram... A não ser na sua imaginação neurótica e crivada de sonhos ocos.
Não falava, não cantava, não parava, durantes essas andanças. Antes, murmurava um gemido que, de tão baixo, quase ninguém do lugar percebia.
Visitantes ou viajantes que passavam pelo vilarejo queriam explicações, motivos, justificativas para o modo de se mover daquela infeliz. E ouviam muitas versões de histórias compridas, meio que folclóricas, sobre a mãe que não era... Uma delas dava conta de um grande amor perdido, e de promessas feitas a ela, vazias, como os dois lugares sujos que empurrava.
Um dia, apiedado da mulher, um velho mascate quis colocar bonecos dentro do carrinho duplo, como um lenitivo para aquela aflitiva situação de desesperança e ilusão mórbida. A frustrada mãe jogou os dois bonecos no rio, e continuou na sua jornada interminável, se arrastando pelas ruas do lugar, num murmúrio quase imperceptível a lhe sair pelos lábios. Nada substituía seu vazio particular de genitora.

César Pavezzi

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Para tornar a vida e os dias mais leves...

Um poema famoso, de um autor muito conhecido (versão em espanhol):

"Carpe Diem" (excertos)

Aprovecha el día.
No dejes que termine sin haber crecido un poco, sin haber sido feliz,
sin haber alimentado tus sueños.



No te dejes vencer por el desaliento. No permitas que nadie te quite el
derecho de expresarte, que es casi un deber.
No abandones tus ansias de hacer de tu vida algo extraordinario…
No dejes de creer que las palabras y la poesía, sí pueden cambiar al
mundo; porque, pase lo que pase, nuestra esencia está intacta.


(...)
No dejes nunca de soñar, porque sólo en sueños puede ser libre el
hombre.

No caigas en el peor de los errores: el silencio. La mayoría vive en un
silencio espantoso. No te resignes, huye…


(...)
No traiciones tus creencias, todos merecemos ser aceptados.
No podemos remar en contra de nosotros mismos, eso transforma la
vida en un infierno.

Disfruta del pánico que provoca tener la vida por delante.
Vívela intensamente, sin mediocridades.


Piensa que en ti está el futuro, y asume la tarea con orgullo y sin
miedo.

(...)
No permitas que la vida te pase a ti, sin que tú la vivas…

Walt Whitman

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Oração de São Jorge (pelo emprego)

"Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge.
Para que meus inimigos, tendo pés, não me alcancem,
Tendo mãos, não me peguem, tendo olhos, não me vejam,
Nem pensamentos eles possam ter para me fazerem mal.
Armas de fogo, o meu corpo, não alcançarão,
Facas e lanças se quebrem sem ao meu corpo chegar,
Cordas e correntes se quebrem sem o meu corpo amarrar.

São Jorge, cavaleiro corajoso, intrépido e vencedor,
Abre os meus caminhos; ajuda-me a conseguir um bom emprego;
Fazei com que eu seja bem visto por todos, superiores, colegas e subordinados.
Que a paz, o amor e a harmonia estejam presentes no meu coração, no meu lar
E no meu serviço; vela por mim e pelos meus, protegendo-nos sempre,
Abrindo e iluminando os nossos caminhos, ajudando-nos também 
A transmitir paz, amor e harmonia a todos que nos rodeiam."

domingo, 25 de junho de 2017

Atitudes que ajudam a simplificar a vida...

Descomplique várias situações e contextos do seu dia-a-dia com atitudes preciosas, que vão auxiliar a se manter saudável e mais tranquilo para enfrentar os desafios de uma sociedade turbulenta demais:

1. Levante-se 20 minutos mais cedo;
2. Chegue 10 minutos adiantado para encontros ou reuniões;
3. Faça uma coisa de cada vez;
4. Faça algumas perguntas a si mesmo;
5. Reavalie a importância da situação em curso;
6. Tome nota da maioria das coisas;
7. Lembre-se de que existem coisas mais importantes do que as pessoais;
8. Desfrute das coisas simples da vida;
9. Tome sempre água;
10. Gentileza gera gentileza;
11. Simplifique o ambiente de sua casa;
12. Pare um pouco para admirar as flores;
13. Passe um tempo com pessoas simples;
14. Peça conselhos a quem já passou por certa situação;
15. Esqueça a perfeição;
16. Pare para tomar ar fresco várias vezes ao dia;
17. Planeje, minimamente, a sua semana;
18. Faça mais perguntas às pessoa ao seu redor;
19. Tire um tempinho para a preguiça;
20. Lembre-se de que a vida é curta e amadureça!

(compilado de tudoporemail.com.br)

domingo, 7 de maio de 2017

Uma última entrevista inusitada...

César Pavezzi encara uma de repórter outra vez e resolve conversar com outras sete Senhoras dominadoras do mundo e da vida, em muitos sentidos... Um projeto audacioso porque envolve questionar justamente quem nos dá respostas para todas as angústias e inquietações da Humanidade. Com certeza, a sabedoria das respostas obtidas pode nos levar a inúmeras reflexões sobre o que estamos fazendo com nossa própria realidade e com nosso destino. Com vocês, leitores, nossa sétima convidada:

Senhora Solidão

César Pavezzi: É com respeito e admiração que começo essa nossa entrevista, minha cara Senhora.
Solidão: Muito grata, meu caro repórter. Vou procurar esclarecer as coisas de forma simples e direta, pode acreditar.
Repórter: As pessoas confundem muito o fato de alguém querer ficar sozinho com ser solitário. O que pensa sobre isso?
Solidão: Pois é, há que se fazer uma distinção analítica. Quando alguém está sozinho, não solitário, em muitos aspectos, é por pura opção ou vontade. Ser solitário envolve avaliar isolamento, tristeza, depressão, timidez, introvertimento, entre outros fatores sócio-emocionais.
Repórter: Bem, esse e outro tipo de confusão que acontece, quando o assunto é a senhora, pode explicar certa negatividade que carrega?
Solidão: Pode, em muitas ocasiões. O ser humano é gregário, interativo, sociável, não sendo admitido que alguém fique na minha companhia por muito tempo ou por opção.
Repórter: Há diferentes tipos de solidão, então? Como quais?
Solidão: Creio que é necessário separar as relações humanas, seus papéis, as condições sociais, para poder me entender melhor. Há solidão até em muitas relações que se dizem amorosas... E há solidão entre membros de uma mesma família, e até de uma mesma comunidade específica. Uma pessoa pode estar cercada de uma multidão, e se sentir extremamente sozinha. Depende das circunstâncias e motivações.
Repórter: Muitos seres humanos dizem ser a solidão amorosa o pior tipo de sentimento que a envolve. Também acredita nisso?
Solidão: Pode ser... Mas creio que, se você amou alguém e tem lembranças positivas e emocionantes, eu acabo sendo amenizada, já que a memória pode deixar as pessoas menos solitárias.
Repórter: E a solidão da falta de amigos? É dolorosa também, não acha?
Solidão: Sem dúvida. Creio que o segredo para me evitar, nessas relações, é não desejar que outro seja como você, e respeitar as diferenças, incluindo aqui o modo de sentir as coisas.
Repórter: Mas estar cercado de um monte de pessoas do lado de fora não significa que, internamente, não possamos estar num momento de solidão profunda, não é mesmo?
Solidão: Em muitas circunstâncias, sim. Mas prefiro compreender que, quando eu toco as pessoas, é para significar um tipo de pausa para reflexão: sobre a vida, suas relações com as pessoas, com o mundo que te cerca, sobre o que te faz feliz ou descontente...
Repórter: Há certas pessoas que também acreditam que o ser humano nunca está totalmente sozinho, sendo sempre velado ou protegido por forças e entidades espirituais. Isso seria possível?
Solidão: Depende. Uma crença é sempre uma esperança a mais para você se sentir amparado, acompanhado. Cada ser humano é fonte de energias e efeitos emocionais constantes que podem tranquilizá-lo, animá-lo ou prejudicá-lo. Não estar sozinho ou não ser solitário é uma questão de escolha.
Repórter: Profundamente agradecido por suas palavras sinceras e cheias de reflexão. Meus respeitos.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Mais entrevistas inusitadas...

César Pavezzi encara uma de repórter outra vez e resolve conversar com outras sete Senhoras dominadoras do mundo e da vida, em muitos sentidos... Um projeto audacioso porque envolve questionar justamente quem nos dá respostas para todas as angústias e inquietações da Humanidade. Com certeza, a sabedoria das respostas obtidas pode nos levar a inúmeras reflexões sobre o que estamos fazendo com nossa própria realidade e com nosso destino. Com vocês, leitores, nossa sexta convidada:

Senhora Saudade
César Pavezzi: É com muita honra e satisfação que passo a entrevistar um sentimento tão genuíno como a senhora...
Saudade: Eu também agradeço e me sinto honrada por estar aqui.
Repórter: Qual seria a melhor definição da senhora nos corações dos seres humanos?
Saudade: Um misto de sentir falta, melancolia por não ter mais e certa tristeza por conta da distância ou do distanciamento entre pessoas. Às vezes, é complicado me traduzir... Depende das situações envolvidas.
Repórter: É verdade que, curiosamente, muitas pessoas sentem saudade de algo que ainda não viveram ou que gostariam de ter vivido?
Saudade: Pra você ver como sou particularmente intrigante nos corações e mentes dos seres humanos: isso pode acontecer, misturado com uma melancolia interior muito intensa. Acho que são certos desejos ou planos reprimidos que ficam no subconsciente...
Repórter: Para muitos, a senhora é um sentimento bonito, apesar de envolver tristeza e decepção. O que opina sobre isso?
Saudade: Prefiro pensar que sou um sentimento positivo, pois meu efeito é de justamente preservar a lembrança e ativar muitas memórias. Acho até que é mais correto pensar que só se tem saudade daquilo que foi bom e mais positivo.
Repórter: Muitos historiadores e antropólogos avaliam que sua origem vem do chamado banzo africano, já que os negros escravizados sentiam falta de suas terras e parentes, dos quais foram separados e levados para outros lugares. Isso a deixa orgulhosa?
Saudade: Muitíssimo. Saber que sou um sentimento surgido assim, por conta de opressão e violência contra os africanos, me faz pensar no quanto tenho de honra e dignidade, já que lhes despertava memórias e lembranças fortes de suas etnias e famílias, e que, com certeza os ajudou a lutar e resistir, até com esperança de voltar...
Repórter: Resposta muito lúcida. E, a partir disso, como se sente por ser uma palavra existente somente na língua portuguesa, sem tradução literal em outros idiomas?
Saudade: Feliz, sem querer ser exclusivista. Até porque trata-se apenas de uma questão de léxico, já que existem outros termos equivalentes que podem me traduzir em outras nações.
Repórter: Bom, pensando de forma mais racional, qual seria o pior sentimento de saudade que um ser humano poderia vivenciar?
Saudade: Eu creio que muitos confundem, por excesso de apego, saudade com luto... Mesmo quando se tratar da perda física de entes queridos, há que se relativizar o que sentimos, pois é normal ter saudade, mas não ficar cultivando uma tristeza depressiva perene.
Repórter: Para finalizar, que mensagem a senhora poderia deixar aos nossos leitores, com certeza, sempre saudosos de alguém ou de alguma situação de vida?
Saudade: Que me cultivem de maneira leve e positiva, não esquecendo de que sou motor para memórias e lembranças positivas, e que ajudo a preservar sua história de vida e seus bons sentimentos. Abraço de Saudade a todos.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Mais uma entrevista inusitada...

César Pavezzi encara uma de repórter outra vez e resolve conversar com outras sete Senhoras dominadoras do mundo e da vida, em muitos sentidos... Um projeto audacioso porque envolve questionar justamente quem nos dá respostas para todas as angústias e inquietações da Humanidade. Com certeza, a sabedoria das respostas obtidas pode nos levar a inúmeras reflexões sobre o que estamos fazendo com nossa própria realidade e com nosso destino. Com vocês, leitores, nossa quinta convidada:

Senhora Amizade
César Pavezzi: É um grande prazer poder colher impressões e opiniões da Senhora. Nossa conversa será, com certeza, muito amigável... rs
Amizade: Não tenha dúvida, meu caro. Estou sempre pronta a influenciar novas relações e interações.
Repórter: Ótimo, então já inicio questionando algo que muitas pessoas já discutiram e versificaram: que a senhora é superior ao Amor. O que pensa?
Amizade: Sou suspeita, mas tenho que concordar. Desde que consideremos que o verdadeiro sentimento de amizade compreende mais, tolera mais, aceita mais e é menos possessivo que o nosso amigo.
Repórter: Quer dizer então que uma relação amiga relativiza certas questões de vínculo e interação entre duas pessoas?
Amizade: Com toda a certeza. Amigos são menos controladores, menos sufocantes do que amantes... Claro está que, mesmo em se tratando de amizade, o tempo e a cumplicidade também vão ditar posturas de respeito e entendimento generosas.
Repórter: E o que observa das ditas amizades “coloridas”, em que se misturam afeto e intimidade sexual?
Amizade: Meu caro, creio que não podem ser chamadas de amizades. Se o que se constrói é um sentimento genuíno, franco, respeitoso, o mesmo deve ser reservado para questões de interior, fraternas, onde não deveriam se misturar certos desejos físicos.
Repórter: Por outro lado, é correto admitir que uma relação amorosa, íntima e companheira, deveria sempre partir de uma amizade verdadeira?
Amizade: Seria o ideal. Amor à primeira vista é algo questionável, já que para se desenvolver uma relação mais profunda, é preciso conhecer os hábitos, a história e os sentimentos íntimos do outro. Para isso é que se pode lançar mão de um tempo de contato, aproximação e descoberta de identificações, através de mim.
Repórter: Ainda existem posturas machistas que não admitem que, por exemplo, um homem tenha amizade com uma mulher, gerando suspeitas de que existe algo mais... Como se sente com relação a isso?
Amizade: Muito triste, até porque para a amizade não deveria haver esse tipo de discriminação. Da mesma forma que falar em estabelecer “amizade” com alguém, arquitetando segundas e terceiras intenções, também me constrange. Este sentimento tem que ser espontâneo, sincero, fluido e respeitoso.
Repórter: Por falar em espontaneidade, existe muita gente que pensa ter uma grande quantidade de amigos, quando na verdade são poucos os que realmente desenvolvem essa postura sincera e afetiva. Aliás, não acha que é possível pensar muito mais em individualismos do que em relações de amizade socialmente corretas?
Amizade: Do jeito que a sociedade está de portando no mundo de hoje, é evidente que existem muitas relações de conveniência, equivocadas e interesseiras, seja por vaidade, seja por questões materiais. É triste perceber que tudo não passa de um jogo de falsidades e superficialidades...
Repórter: Nesse sentido, o melhor é ter poucos amigos, mas autênticos e dedicados, do que arremedos de relações pouco confiáveis?
Amizade: Mais uma vez, tenho que concordar com você. Amigos devem ser poucos e preciosos. E ninguém deve se enganar, porque vale mais um amigo sincero e prestativo do que a ilusão de uma relação que não te motiva nem te reconhece como irmão.
Repórter: Muitíssimo obrigado pelas sérias e importantes orientações, muito grato.

Amizade: Não tem por quê. Desejo a todos que se dediquem mais às suas amizades e reforcem os laços que os unem às pessoas afins.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Uma grande canção (tradução livre)

Graças a minha Vida
(Gracias a la vida)

Violeta Parra

(...)
Graças a minha Vida que já me deu tanto
Me deu o sonoro e o abecedário
Com ele as palavras que penso e declaro
Mãe, amigo, irmão e luz clareando
A rota da alma de quem estou amando

Graças a minha Vida que me deu tanto
Me deu a marcha de meus pés cansados
Com eles andava cidades e charcos
Praias e desertos, montanhas e vales
E a casa tua, tua rua e teu pátio

Graças a minha vida que já me deu tanto
Me deu o coração que agita seu marco
Quando vejo o fruto do cérebro humano
Quando vejo o bom tão longe do mau
Quando vejo o fundo de teu olhos claros

Graças a minha vida que já me deu tanto
Já me deu o riso e já me deu o pranto
Assim eu distingo sorte de quebranto
Os dois materiais que formam meu canto

E o canto de vocês que é o mesmo canto
E o canto de vocês que é meu próprio canto
Graças e minha Vida, graças a minha Vida...

sábado, 22 de outubro de 2016

Mais uma entrevista inusitada...

César Pavezzi encara uma de repórter outra vez e resolve conversar com outras sete Senhoras dominadoras do mundo e da vida, em muitos sentidos... Um projeto audacioso porque envolve questionar justamente quem nos dá respostas para todas as angústias e inquietações da Humanidade. Com certeza, a sabedoria das respostas obtidas pode nos levar a inúmeras reflexões sobre o que estamos fazendo com nossa própria realidade e com nosso destino. Com vocês, leitores, nossa quarta convidada:

Senhora Bondade

César Pavezzi: É uma grande satisfação poder falar com a Senhora, tão nobre e tão dignificadora das ações humanas...
Bondade: Eu me sinto honrada, meu caro repórter... E naturalmente irei corresponder às suas expectativas da melhor maneira possível.
Repórter: É possível pensar, como no passado alguns filósofos já propuseram, que o ser humano, na sua natureza intrínseca, é bom?
Bondade: Completamente. Não posso admitir que ele seja concebido com sementes e germes de maldade, na sua consciência e na sua alma. São as experiências e circunstâncias emocionais e sociais que o tornam diferente.
Repórter: Assim considerando, o que o transformaria seriam, então, fatores e acontecimentos externos?
Bondade: Eu acredito que sim. As provas, os desafios, os obstáculos e influências encontrados ao longo de sua jornada nesse mundo, fazem com que o mesmo assuma comportamentos e atitudes que o afastam de sua natureza original.
Repórter: Ou seja, o entorno social e as instituições que o obrigam a assumir papéis auxiliam na perda desse componente tão importante para seu caráter e equilíbrio de sua personalidade?
Bondade: Este é um raciocínio muito acertado. Pressionado por tantas exigências do meio social, e por dificuldades internas de equilibrar posturas e decisões a serem tomadas, o ser humano comete atos às vezes abomináveis, impensáveis num indivíduo de sua espécie.
Repórter: Como poderia ocorrer de forma mais coerente a formação de valores positivos, como a senhora, e aquele equilíbrio entre personalidade e papéis sociais inerentes ao estar nesse mundo?
Bondade: Na minha terna e carinhosa visão, dois fatores essenciais se perdem durante a vida de um indivíduo: a maneira como ele deveria vivenciar o respeito dentro da coletividade e seu afastamento de uma crença espiritual. Uma consciência cultivada desses dois aspectos levaria a um entendimento melhor do que é ser bom, com empatia e responsabilidade moral.
Repórter: Poderia nos explicitar algum exemplo referente ao respeito, enquanto prática coletiva?
Bondade: Claro. Respeitar suas limitações, suas dificuldades, sua condição de ser em constante mudança e crescimento é um sentimento que pode e deve ser transferido, em termos de reciprocidade, a todos os outros que são seres humanos. Ao invés disso, o que se vê em muitos povos e comunidades é somente egoísmo, vaidade, vícios, imediatismos pessoais, dissimulações.
Repórter: Em função disso, não é difícil entender aquele afastamento de uma crença espiritual, já que não existem compromissos morais?
Bondade: Perfeitamente. Se o ser humano se volta absolutamente para ele e para suas necessidades físicas e interesses materialistas, a possibilidade de acreditar em questões espirituais e seus desdobramentos acaba se tornando muito remota. E como sentir bondade se você não se reconhece no outro, enquanto semelhante?
Repórter: Bem, para finalizar, que conselho a senhora daria para aquelas pessoas que, apesar de todas as questões de nosso mundo, ainda tentam manter um mínimo da senhora em seus corações?
Bondade: Para que se mantenham assim, pois além de mim, não pode faltar aos seres humanos outro sentimento primordial que pode preservar sua alma: o amor.

Repórter: Extremamente agradecido e emocionado com suas palavras profundas e luminosas.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Uma letra e uma canção inspiradoras...

Brincar de Viver
(Guilherme Arantes)

Quem me chamou
Quem vai querer voltar pro ninho
Redescobrir seu lugar
Pra retornar e enfrentar o dia-a-dia
Reaprender a sonhar

Você verá que é mesmo assim
Que a história não tem fim
E continua sempre que você
Responde "sim" à sua imaginação
À arte de sorrir cada vez que o mundo diz "não"

Você verá que a emoção começa agora
Agora é brincar de viver
Não esquecer, ninguém é o centro do universo
Assim é o maior o prazer

(...)
E eu desejo amar a todos que eu cruzar
Pelo meu caminho...
Como sou feliz, eu quero ver feliz
Quem andar comigo, vem..

(Interpretada lindamente por Maria Bethânia)




domingo, 15 de maio de 2016

Mais entrevistas inusitadas...

César Pavezzi encara uma de repórter outra vez e resolve conversar com outras sete Senhoras dominadoras do mundo e da vida, em muitos sentidos... Um projeto audacioso porque envolve questionar justamente quem nos dá respostas para todas as angústias e inquietações da Humanidade. Com certeza, a sabedoria das respostas obtidas pode nos levar a inúmeras reflexões sobre o que estamos fazendo com nossa própria realidade e com nosso destino. Com vocês, leitores, nossa terceira convidada:

Senhora Sexualidade
César Pavezzi: É com satisfação que entrevisto uma grande força que move as pessoas desse mundo...
Sexualidade: A mim também pode ser prazeroso expor meus conceitos e influências que dominam muitas culturas humanas...
Repórter: Então seria conveniente expor por que a Senhora pode ser, ao mesmo tempo, uma fonte de energia criadora positiva e, para muitos, justamente aquilo que degenera, que vicia, que pode até destruir?
Sexualidade: Depende do ponto de vista de cada um, em especial se formos levar em conta questões moralistas ou culturais de cada grupo social. O que para alguns é necessário apenas para procriação, para outros pode representar apenas uma fonte de prazer a mais.
Repórter: Mas ficar exercitando-a continuamente apenas pela busca do prazer físico, de sensações, não pode representar algo vicioso e distanciado de envolvimento emocional, nas relações humanas?
Sexualidade: Pode ser... O ser humano é vaidoso, em muitos casos prepotente, e para não parecer fraco, se autoafirma justamente através de mim... Se não há equilíbrio entre aquela busca e o desenvolvimento de relações sentimentais, é por conta desse narcisismo recorrente nos meios sociais.
Repórter: Já que falou em questões sentimentais, o que pensa dessa atitude das pessoas de primeiro levar em conta a performance física, sem que o lado emocional seja valorizado?
Sexualidade: Tem coisas que acontecem de forma até inconsciente, já que a energia que desperto tem raízes primitivas e animalescas. Nesse sentido, humanos e animais são muito parecidos: querem se exibir, se expor, tentar conquistar pela aparência e pela sensualidade, em rituais e manifestações às vezes exagerados.
Repórter: Por falar em comportamento inconsciente, a senhora acredita nas teorias psicanalíticas que atribuem ao inconsciente certos desejos sexuais, considerados tabu em muitas sociedades?
Sexualidade: Se imaginarmos que essa força que me constitui pode sair de controle quando não queremos racionalizar ou reprimir certos conceitos e ideias considerados moralmente doentes, em muitos aspectos as teorias estão corretas.
Repórter: Não lhe parece assustador considerar que muitos humanos, por se deixarem levar emocional ou psicologicamente pela sua influência, tenham seus sentimentos rebaixados a meros instintos?
Sexualidade: Eis o campo farto para eu me desenvolver de forma equivocada e pouco saudável: uma mídia que se aproveita desses sentimentos das pessoas, meios de comunicação que sugerem, divulgam e incentivam meu exercício desenfreado, e seres humanos totalmente suscetíveis a essas manifestações de sensualidade aberta.
Repórter: E quando tudo isso se transforma numa força destruidora de relações amorosas?
Sexualidade: Há que se questionar se são relações realmente amorosas... Porque não podemos confundir uma paixão física, baseada em sensações e prazeres corporais, com sentimento genuíno de amor. Os dois podem até acontecer juntos, o que seria ideal. Mas um relacionamento construído apenas sobre sexo está fadado ao fracasso, com certeza.
Repórter: Para concluir nossas reflexões, o que pensa de si mesma quando o ser humano chega à maturidade?
Sexualidade: É o melhor momento para saber, com experiência, tirar o melhor proveito do meu exercício. Até porque, muito da sexualidade está na mente. Ou seja, há muito mais para explorar, a partir de mim, do que o sexo genital. O tempo pode mostrar...

Repórter: Muito grato pelas palavras lúcidas e interessantes.

"O direito à literatura"(fragmento)

Apresentamos, de forma objetiva, a visão de Antônio Cândido, grande historiador, analista e professor de Literatura: (...) "Chamarei de...