sábado, 7 de abril de 2018

Crônicas de um lugar esquecido

O bicho e o pescador

Foi num dia em que os peixes do rio que ladeava o vilarejo começaram a rarear, talvez por conta da mudança de estação, que o único pescador do lugar estranhou a presença daquele vulto enorme, que parecia observá-lo por detrás de moitas, do outro lado, na outra margem. Em vão, tentou divisar melhor se era uma pessoa alta, corpulenta, ou algum bicho desconhecido naquela região. Quando voltou a se concentrar na pesca que tentava realizar, o vulto sumiu. Ele bem que olhou por repetidas vezes e em várias direções, intrigado com aquela presença estranha, mas nem sombra.
Uma semana depois, a vegetação do outro lado traiu o movimento da criatura, e o homem pôde perceber que não se tratava de ser humano, mas sim de um animal grande. Porém, como da outra vez, ele ficou observando o homem lá de longe, perto da mata, e acabou por se afastar. Talvez por receio de que fosse rechaçado ou ferido pelo pescador. 
Depois de algumas aparições, por inteiro, mesmo de longe, o homem teve a certeza de que o animal era um urso, com pelo marrom escuro, estatura alta e imponente. Quando o mesmo ficou mais próximo da margem, e até pisou nas águas do rio, o velho pescador compreendeu duas coisas evidentes: o bicho tinha fome e se alimentava de peixes. Seu coração foi tocado por essas coincidências naturais que os unia. Tanto que, com um olhar mais demorado e apurado, conseguiu notar que o urso estava magro e fraco, mal conseguindo se manter ereto nas patas traseiras. 
A aproximação dos dois foi se fazendo de maneira lenta e curiosa, ambos se estudando e instintivamente procurando formas de não se estranharem ou se atacarem. O pescador, sabiamente, se lembrou que a mão que alimenta é a mão que ganha confiança... E começou a dividir os poucos peixes que conseguia do rio com o animal. Entre eles, então, surgiu um arremedo de amizade.
Muitas semanas depois, quando a lua mudou, uma noite de susto para o homem: o urso o havia seguido, depois da pesca, e estava dormindo no quintal de sua casa. E isso se repetiu por várias noites. Como o animal fosse silencioso e se esgueirasse por entre as sombras do vilarejo, quase ninguém notou. E se notou, ele passava somente como um vulto a mais, nas noites do lugar.
Até o dia em que, se sentindo ligado à companhia do pescador, o urso veio procurar comida na sua casa, assustando os vizinhos e outros moradores, que propuseram sua captura, ou como diversão ou para aproveitar sua pele, uma vez que o inverno chegaria logo naquelas paragens. Formou-se então, um verdadeiro pandemônio, por conta da perseguição que promoveram ao urso. O bicho, por força da quantidade de pessoas que o caçava, não quis confronto e preferiu fugir para as bandas do rio. 
O velho pescador já tinha deduzido isto, e quando o animal chegou na margem, ajudou-o a entrar no seu barco. E sem pensar no prejuízo que teria com sua atitude, empurrou o mesmo para a correnteza e deixou que o rio fizesse a sua parte. A turba barulhenta e excitada que chegava, só teve tempo de ver o vulto do bicho, que deslizava distante, salvo pelo amigo que queria preservá-lo de tudo aquilo.

César Pavezzi

sexta-feira, 16 de março de 2018

Crônicas de um lugar esquecido

A casa sem portas e sem janelas

Dizem que janelas são os olhos de qualquer casa, por onde se pode avistar coisas exteriores... Ou, inversamente, servir de entrada para olhares indiscretos, curiosos, invasivos. Assim era aquela moradia estranha, em que o construtor, seu próprio habitante, tinha-a feito sem portas e janelas. Não achou necessidade de colocar tais barreiras ou, como muitos querem, recursos de segurança e privacidade. Num lugar onde roubos e furtos não aconteciam, e onde todos ainda tinha pudores e reservas, quanto à intimidade, era fácil viver numa casa como aquela.
O maior estranhamento, porém, residia no fato de que somente a casa do homem, que havia colocado portas e janelas em todas as outras que construíra no vilarejo, não tinha esses acabamentos. Como sempre fora justo ao cobrar pelos serviços que realizava, encontrou nos poucos cidadãos do lugar um respeito e muita compreensão por essa atitude diferente...
Ninguém invadia a casa, ou manifestava intenções de conhecer o seu interior, em todos aqueles tempos. Havia na mente de muitos a desconfiança de que podiam acontecer coisas misteriosas e assustadoras no seu interior. Crianças então, que tem um instinto natural de curiosidade, sequer passavam em frente à construção. Surgiam boatos de que o homem dominava seres e energias misteriosas com os quais convivia, em especial à noite, quando a escuridão só permitia ver alguns poucos acenderes e apagares de lumes, em muitos dos cômodos da casa. O que seriam aqueles brilhos e luzes foscas? Nenhum dos que já tinham visto ousavam questionar diretamente ou investigar junto ao construtor solitário.
Enquanto viveu ali, sem ter suas particularidades compartilhadas, o homem continuou a levar sua rotina de ajudar as pessoas a construir suas casas e manter uma postura discreta. Se falava, era apenas para concordar sobre um combinado ou outro relativos ao serviço, e sobre algum caso breve, envolvendo outras moradias que se lembrava ter levantado. E sempre se recolhia ao anoitecer, com seus lumes e brilhos, tão discretos quanto seu jeito de viver. 
Quando, um dia, o homem sumiu, alguns vizinhos resolveram entrar na casa para tentar entender o acontecimento inexplicável. E se maravilharam ao constatar que o construtor fazia experiências com pirilampos, mariposas e várias espécies de insetos que emitiam brilho nas noites. Havia muitas plantas e flores onde os mesmos se abrigavam e se alimentavam, livremente. E todos começaram a compreender, emocionados, porque ele tinha a necessidade de não impedir a entrada dos bichos em sua casa, já que significavam consolo e companhia no breu das horas.

César Pavezzi

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Crônicas de um lugar esquecido...

Estação onde a esperança não chega

E tinha o menino, tímido, retraído, porém com uma ansiedade desvelada, sempre presente no modo lacônico como se comunicava. Cresceu ajudado por pessoas do lugar, de favores, comiseradas que eram por sua situação de abandonado. Pai não tinha, e mãe havia sumido misteriosamente numa noite em que, numa crise de identidade, largara tudo e se mandou do lugar sem ser percebida. Nessa época, o menino tinha três anos... Havia tanto sossego e silêncio naquela casa que só foram perceber que o pequeno tinha ficado sozinho uma semana depois do fato. Como ele sobreviveu, ninguém sabe, talvez por puro milagre (se é que milagres existem nessa terra...).
Depois da casa do senhorio que o descobriu, por conta de cobrar o aluguel, o garoto passou por um revezamento de lares, já que era estranho ter que se responsabilizar por um filho sem pais. E com o auxílio, umas vezes improvisado, outras vezes negado, o tempo foi passando rápido, e vamos encontrá-lo agora com dez anos de idade. Com a saúde emocional fragilizada, sua vida sofrida foi um pouquinho iluminada por algo bom, ao qual ele se agarrou com todas as forças, como um ideal.
Havia uma velha senhora no vilarejo que fazia as vezes de professora. Comovida com as condições pouco ou quase nada adequadas do menino, resolveu acolhê-lo entre seus pequenos alunos, para que aprendesse minimamente a ler e a contar. Problemas existenciais a parte, ele se revelou um ótimo aprendiz, compreendendo rapidamente os conhecimentos básicos transmitidos pela mulher.
Seus olhos brilharam e seu coração bateu mais forte quando, certo dia, deparou-se com um antigo e desbotado livro de histórias, que mostravam meios de transporte modernos, em que havia uma grande e bem desenhada ilustração de um trem. Um trem, a todo vapor, cortando o vale, com sua locomotiva e seus vagões imponentes, quase chegando a um vilarejo também desenhado na paisagem do livro.
A partir daí começou a sua insistente e ansiosa esperança a carregá-lo, todos os dias, para a saída da cidade, pois tinha ouvido boatos de que, desde há muitos anos, muitos esperavam que aquela possibilidade de progresso, poderia por fim ao isolamento perene do vilarejo. Seu coraçãozinho de menino passou a sonhar com a estação construída e, mais intensamente, com a chegada da máquina potente e veloz, trazendo outras pessoas e levando os viajantes para outras terras. No fundo, mesmo sendo um ilusão tudo aquilo, seu compromisso com o lugarzinho onde se sentava e esperava, todos os finais de tarde, era motivado por aquela esperança, costurada nas camadas mais profundas do seu subconsciente, de que a mãe voltaria para o vilarejo. Ele antevia a mesma acenando da janela do trem, descendo para a plataforma da estação e correndo, emocionada, na direção do seu abraço. Ninguém que o conhecia tinha coragem de tirar isso do menino, e nós sabemos porquê.

César Pavezzi

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Crônicas de um lugar esquecido...

Uma mãe que não era

Lá vinha ela novamente, pela rua central do vilarejo, empurrando a materialização de suas lembranças loucas e sofridas. Loucas porque faziam com que representasse um personagem surreal, exótico, forçado e desbotado. Sofridas pela assunção de sentimentos desvairados, porém convictos, que lhe acrescentavam um ar de coisa pouco humana.
Trazia nas vestes e no semblante as marcas de um tempo gasto numa procura inquieta de transformar em realidade aquilo que não podia ser... Marcas cada vez mais profundas de sua miséria emocional misturada com uma aparência de animal agitado e ansioso.
Percorria as ruas do vilarejo, do nascer ao poente, da mesma forma como fazia há muitos anos. Alguns revelavam já tê-la visto vagando também pelas noites frias e madrugadas silenciosas do lugar. Arrastava os pés numa sandália baixa, estropiada pelas caminhadas sucessivas e insistentes. Procurava o quê, aquela criatura? Sempre vagarosa, como uma lesma, e fechada na sua angústia. E nessa carapaça lenta e misteriosa, empurrava adiante, um carrinho de gêmeos. Sempre o mesmo carrinho duplo, ensebado e rasgado pela ação do tempo, sem nada dentro. Somente o vácuo de duas criaturas que nunca existiram... A não ser na sua imaginação neurótica e crivada de sonhos ocos.
Não falava, não cantava, não parava, durantes essas andanças. Antes, murmurava um gemido que, de tão baixo, quase ninguém do lugar percebia.
Visitantes ou viajantes que passavam pelo vilarejo queriam explicações, motivos, justificativas para o modo de se mover daquela infeliz. E ouviam muitas versões de histórias compridas, meio que folclóricas, sobre a mãe que não era... Uma delas dava conta de um grande amor perdido, e de promessas feitas a ela, vazias, como os dois lugares sujos que empurrava.
Um dia, apiedado da mulher, um velho mascate quis colocar bonecos dentro do carrinho duplo, como um lenitivo para aquela aflitiva situação de desesperança e ilusão mórbida. A frustrada mãe jogou os dois bonecos no rio, e continuou na sua jornada interminável, se arrastando pelas ruas do lugar, num murmúrio quase imperceptível a lhe sair pelos lábios. Nada substituía seu vazio particular de genitora.

César Pavezzi

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Para tornar a vida e os dias mais leves...

Um poema famoso, de um autor muito conhecido (versão em espanhol):

"Carpe Diem" (excertos)

Aprovecha el día.
No dejes que termine sin haber crecido un poco, sin haber sido feliz,
sin haber alimentado tus sueños.



No te dejes vencer por el desaliento. No permitas que nadie te quite el
derecho de expresarte, que es casi un deber.
No abandones tus ansias de hacer de tu vida algo extraordinario…
No dejes de creer que las palabras y la poesía, sí pueden cambiar al
mundo; porque, pase lo que pase, nuestra esencia está intacta.


(...)
No dejes nunca de soñar, porque sólo en sueños puede ser libre el
hombre.

No caigas en el peor de los errores: el silencio. La mayoría vive en un
silencio espantoso. No te resignes, huye…


(...)
No traiciones tus creencias, todos merecemos ser aceptados.
No podemos remar en contra de nosotros mismos, eso transforma la
vida en un infierno.

Disfruta del pánico que provoca tener la vida por delante.
Vívela intensamente, sin mediocridades.


Piensa que en ti está el futuro, y asume la tarea con orgullo y sin
miedo.

(...)
No permitas que la vida te pase a ti, sin que tú la vivas…

Walt Whitman

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Oração de São Jorge (pelo emprego)

"Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge.
Para que meus inimigos, tendo pés, não me alcancem,
Tendo mãos, não me peguem, tendo olhos, não me vejam,
Nem pensamentos eles possam ter para me fazerem mal.
Armas de fogo, o meu corpo, não alcançarão,
Facas e lanças se quebrem sem ao meu corpo chegar,
Cordas e correntes se quebrem sem o meu corpo amarrar.

São Jorge, cavaleiro corajoso, intrépido e vencedor,
Abre os meus caminhos; ajuda-me a conseguir um bom emprego;
Fazei com que eu seja bem visto por todos, superiores, colegas e subordinados.
Que a paz, o amor e a harmonia estejam presentes no meu coração, no meu lar
E no meu serviço; vela por mim e pelos meus, protegendo-nos sempre,
Abrindo e iluminando os nossos caminhos, ajudando-nos também 
A transmitir paz, amor e harmonia a todos que nos rodeiam."

domingo, 25 de junho de 2017

Atitudes que ajudam a simplificar a vida...

Descomplique várias situações e contextos do seu dia-a-dia com atitudes preciosas, que vão auxiliar a se manter saudável e mais tranquilo para enfrentar os desafios de uma sociedade turbulenta demais:

1. Levante-se 20 minutos mais cedo;
2. Chegue 10 minutos adiantado para encontros ou reuniões;
3. Faça uma coisa de cada vez;
4. Faça algumas perguntas a si mesmo;
5. Reavalie a importância da situação em curso;
6. Tome nota da maioria das coisas;
7. Lembre-se de que existem coisas mais importantes do que as pessoais;
8. Desfrute das coisas simples da vida;
9. Tome sempre água;
10. Gentileza gera gentileza;
11. Simplifique o ambiente de sua casa;
12. Pare um pouco para admirar as flores;
13. Passe um tempo com pessoas simples;
14. Peça conselhos a quem já passou por certa situação;
15. Esqueça a perfeição;
16. Pare para tomar ar fresco várias vezes ao dia;
17. Planeje, minimamente, a sua semana;
18. Faça mais perguntas às pessoa ao seu redor;
19. Tire um tempinho para a preguiça;
20. Lembre-se de que a vida é curta e amadureça!

(compilado de tudoporemail.com.br)

domingo, 7 de maio de 2017

Uma última entrevista inusitada...

César Pavezzi encara uma de repórter outra vez e resolve conversar com outras sete Senhoras dominadoras do mundo e da vida, em muitos sentidos... Um projeto audacioso porque envolve questionar justamente quem nos dá respostas para todas as angústias e inquietações da Humanidade. Com certeza, a sabedoria das respostas obtidas pode nos levar a inúmeras reflexões sobre o que estamos fazendo com nossa própria realidade e com nosso destino. Com vocês, leitores, nossa sétima convidada:

Senhora Solidão

César Pavezzi: É com respeito e admiração que começo essa nossa entrevista, minha cara Senhora.
Solidão: Muito grata, meu caro repórter. Vou procurar esclarecer as coisas de forma simples e direta, pode acreditar.
Repórter: As pessoas confundem muito o fato de alguém querer ficar sozinho com ser solitário. O que pensa sobre isso?
Solidão: Pois é, há que se fazer uma distinção analítica. Quando alguém está sozinho, não solitário, em muitos aspectos, é por pura opção ou vontade. Ser solitário envolve avaliar isolamento, tristeza, depressão, timidez, introvertimento, entre outros fatores sócio-emocionais.
Repórter: Bem, esse e outro tipo de confusão que acontece, quando o assunto é a senhora, pode explicar certa negatividade que carrega?
Solidão: Pode, em muitas ocasiões. O ser humano é gregário, interativo, sociável, não sendo admitido que alguém fique na minha companhia por muito tempo ou por opção.
Repórter: Há diferentes tipos de solidão, então? Como quais?
Solidão: Creio que é necessário separar as relações humanas, seus papéis, as condições sociais, para poder me entender melhor. Há solidão até em muitas relações que se dizem amorosas... E há solidão entre membros de uma mesma família, e até de uma mesma comunidade específica. Uma pessoa pode estar cercada de uma multidão, e se sentir extremamente sozinha. Depende das circunstâncias e motivações.
Repórter: Muitos seres humanos dizem ser a solidão amorosa o pior tipo de sentimento que a envolve. Também acredita nisso?
Solidão: Pode ser... Mas creio que, se você amou alguém e tem lembranças positivas e emocionantes, eu acabo sendo amenizada, já que a memória pode deixar as pessoas menos solitárias.
Repórter: E a solidão da falta de amigos? É dolorosa também, não acha?
Solidão: Sem dúvida. Creio que o segredo para me evitar, nessas relações, é não desejar que outro seja como você, e respeitar as diferenças, incluindo aqui o modo de sentir as coisas.
Repórter: Mas estar cercado de um monte de pessoas do lado de fora não significa que, internamente, não possamos estar num momento de solidão profunda, não é mesmo?
Solidão: Em muitas circunstâncias, sim. Mas prefiro compreender que, quando eu toco as pessoas, é para significar um tipo de pausa para reflexão: sobre a vida, suas relações com as pessoas, com o mundo que te cerca, sobre o que te faz feliz ou descontente...
Repórter: Há certas pessoas que também acreditam que o ser humano nunca está totalmente sozinho, sendo sempre velado ou protegido por forças e entidades espirituais. Isso seria possível?
Solidão: Depende. Uma crença é sempre uma esperança a mais para você se sentir amparado, acompanhado. Cada ser humano é fonte de energias e efeitos emocionais constantes que podem tranquilizá-lo, animá-lo ou prejudicá-lo. Não estar sozinho ou não ser solitário é uma questão de escolha.
Repórter: Profundamente agradecido por suas palavras sinceras e cheias de reflexão. Meus respeitos.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Mais entrevistas inusitadas...

César Pavezzi encara uma de repórter outra vez e resolve conversar com outras sete Senhoras dominadoras do mundo e da vida, em muitos sentidos... Um projeto audacioso porque envolve questionar justamente quem nos dá respostas para todas as angústias e inquietações da Humanidade. Com certeza, a sabedoria das respostas obtidas pode nos levar a inúmeras reflexões sobre o que estamos fazendo com nossa própria realidade e com nosso destino. Com vocês, leitores, nossa sexta convidada:

Senhora Saudade
César Pavezzi: É com muita honra e satisfação que passo a entrevistar um sentimento tão genuíno como a senhora...
Saudade: Eu também agradeço e me sinto honrada por estar aqui.
Repórter: Qual seria a melhor definição da senhora nos corações dos seres humanos?
Saudade: Um misto de sentir falta, melancolia por não ter mais e certa tristeza por conta da distância ou do distanciamento entre pessoas. Às vezes, é complicado me traduzir... Depende das situações envolvidas.
Repórter: É verdade que, curiosamente, muitas pessoas sentem saudade de algo que ainda não viveram ou que gostariam de ter vivido?
Saudade: Pra você ver como sou particularmente intrigante nos corações e mentes dos seres humanos: isso pode acontecer, misturado com uma melancolia interior muito intensa. Acho que são certos desejos ou planos reprimidos que ficam no subconsciente...
Repórter: Para muitos, a senhora é um sentimento bonito, apesar de envolver tristeza e decepção. O que opina sobre isso?
Saudade: Prefiro pensar que sou um sentimento positivo, pois meu efeito é de justamente preservar a lembrança e ativar muitas memórias. Acho até que é mais correto pensar que só se tem saudade daquilo que foi bom e mais positivo.
Repórter: Muitos historiadores e antropólogos avaliam que sua origem vem do chamado banzo africano, já que os negros escravizados sentiam falta de suas terras e parentes, dos quais foram separados e levados para outros lugares. Isso a deixa orgulhosa?
Saudade: Muitíssimo. Saber que sou um sentimento surgido assim, por conta de opressão e violência contra os africanos, me faz pensar no quanto tenho de honra e dignidade, já que lhes despertava memórias e lembranças fortes de suas etnias e famílias, e que, com certeza os ajudou a lutar e resistir, até com esperança de voltar...
Repórter: Resposta muito lúcida. E, a partir disso, como se sente por ser uma palavra existente somente na língua portuguesa, sem tradução literal em outros idiomas?
Saudade: Feliz, sem querer ser exclusivista. Até porque trata-se apenas de uma questão de léxico, já que existem outros termos equivalentes que podem me traduzir em outras nações.
Repórter: Bom, pensando de forma mais racional, qual seria o pior sentimento de saudade que um ser humano poderia vivenciar?
Saudade: Eu creio que muitos confundem, por excesso de apego, saudade com luto... Mesmo quando se tratar da perda física de entes queridos, há que se relativizar o que sentimos, pois é normal ter saudade, mas não ficar cultivando uma tristeza depressiva perene.
Repórter: Para finalizar, que mensagem a senhora poderia deixar aos nossos leitores, com certeza, sempre saudosos de alguém ou de alguma situação de vida?
Saudade: Que me cultivem de maneira leve e positiva, não esquecendo de que sou motor para memórias e lembranças positivas, e que ajudo a preservar sua história de vida e seus bons sentimentos. Abraço de Saudade a todos.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Mais uma entrevista inusitada...

César Pavezzi encara uma de repórter outra vez e resolve conversar com outras sete Senhoras dominadoras do mundo e da vida, em muitos sentidos... Um projeto audacioso porque envolve questionar justamente quem nos dá respostas para todas as angústias e inquietações da Humanidade. Com certeza, a sabedoria das respostas obtidas pode nos levar a inúmeras reflexões sobre o que estamos fazendo com nossa própria realidade e com nosso destino. Com vocês, leitores, nossa quinta convidada:

Senhora Amizade
César Pavezzi: É um grande prazer poder colher impressões e opiniões da Senhora. Nossa conversa será, com certeza, muito amigável... rs
Amizade: Não tenha dúvida, meu caro. Estou sempre pronta a influenciar novas relações e interações.
Repórter: Ótimo, então já inicio questionando algo que muitas pessoas já discutiram e versificaram: que a senhora é superior ao Amor. O que pensa?
Amizade: Sou suspeita, mas tenho que concordar. Desde que consideremos que o verdadeiro sentimento de amizade compreende mais, tolera mais, aceita mais e é menos possessivo que o nosso amigo.
Repórter: Quer dizer então que uma relação amiga relativiza certas questões de vínculo e interação entre duas pessoas?
Amizade: Com toda a certeza. Amigos são menos controladores, menos sufocantes do que amantes... Claro está que, mesmo em se tratando de amizade, o tempo e a cumplicidade também vão ditar posturas de respeito e entendimento generosas.
Repórter: E o que observa das ditas amizades “coloridas”, em que se misturam afeto e intimidade sexual?
Amizade: Meu caro, creio que não podem ser chamadas de amizades. Se o que se constrói é um sentimento genuíno, franco, respeitoso, o mesmo deve ser reservado para questões de interior, fraternas, onde não deveriam se misturar certos desejos físicos.
Repórter: Por outro lado, é correto admitir que uma relação amorosa, íntima e companheira, deveria sempre partir de uma amizade verdadeira?
Amizade: Seria o ideal. Amor à primeira vista é algo questionável, já que para se desenvolver uma relação mais profunda, é preciso conhecer os hábitos, a história e os sentimentos íntimos do outro. Para isso é que se pode lançar mão de um tempo de contato, aproximação e descoberta de identificações, através de mim.
Repórter: Ainda existem posturas machistas que não admitem que, por exemplo, um homem tenha amizade com uma mulher, gerando suspeitas de que existe algo mais... Como se sente com relação a isso?
Amizade: Muito triste, até porque para a amizade não deveria haver esse tipo de discriminação. Da mesma forma que falar em estabelecer “amizade” com alguém, arquitetando segundas e terceiras intenções, também me constrange. Este sentimento tem que ser espontâneo, sincero, fluido e respeitoso.
Repórter: Por falar em espontaneidade, existe muita gente que pensa ter uma grande quantidade de amigos, quando na verdade são poucos os que realmente desenvolvem essa postura sincera e afetiva. Aliás, não acha que é possível pensar muito mais em individualismos do que em relações de amizade socialmente corretas?
Amizade: Do jeito que a sociedade está de portando no mundo de hoje, é evidente que existem muitas relações de conveniência, equivocadas e interesseiras, seja por vaidade, seja por questões materiais. É triste perceber que tudo não passa de um jogo de falsidades e superficialidades...
Repórter: Nesse sentido, o melhor é ter poucos amigos, mas autênticos e dedicados, do que arremedos de relações pouco confiáveis?
Amizade: Mais uma vez, tenho que concordar com você. Amigos devem ser poucos e preciosos. E ninguém deve se enganar, porque vale mais um amigo sincero e prestativo do que a ilusão de uma relação que não te motiva nem te reconhece como irmão.
Repórter: Muitíssimo obrigado pelas sérias e importantes orientações, muito grato.

Amizade: Não tem por quê. Desejo a todos que se dediquem mais às suas amizades e reforcem os laços que os unem às pessoas afins.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Uma grande canção (tradução livre)

Graças a minha Vida
(Gracias a la vida)

Violeta Parra

(...)
Graças a minha Vida que já me deu tanto
Me deu o sonoro e o abecedário
Com ele as palavras que penso e declaro
Mãe, amigo, irmão e luz clareando
A rota da alma de quem estou amando

Graças a minha Vida que me deu tanto
Me deu a marcha de meus pés cansados
Com eles andava cidades e charcos
Praias e desertos, montanhas e vales
E a casa tua, tua rua e teu pátio

Graças a minha vida que já me deu tanto
Me deu o coração que agita seu marco
Quando vejo o fruto do cérebro humano
Quando vejo o bom tão longe do mau
Quando vejo o fundo de teu olhos claros

Graças a minha vida que já me deu tanto
Já me deu o riso e já me deu o pranto
Assim eu distingo sorte de quebranto
Os dois materiais que formam meu canto

E o canto de vocês que é o mesmo canto
E o canto de vocês que é meu próprio canto
Graças e minha Vida, graças a minha Vida...

"O direito à literatura"(fragmento)

Apresentamos, de forma objetiva, a visão de Antônio Cândido, grande historiador, analista e professor de Literatura: (...) "Chamarei de...