domingo, 31 de julho de 2011

A ÚLTIMA DONZELA (Parte 1)

                    Vou contar uma pequena história, passada num pequeno lugar. Era um vilarejo, que mais podia ser visto como uma aldeia. É, uma aldeia é mais apropriado. Poucas casas, pouca gente. Um povo humilde, plantando e trabalhando a terra para sobreviver. E se ajudando, pois não era muito fácil viver sem amigos naquele lugar.
                   A casa do alcaide era a própria prefeitura. E tinha o alcaide, velho justo e cheio de mesuras para com o povo. Um cavalheiro, ainda que se vestisse como um grosseiro lavrador.
                   E havia o ermitão, um sábio que vivia no bangalô mais antigo do vilarejo. De quem as más línguas do lugar falavam que a sapiência não passava de esperteza dele para ludibriar a gente humilde que o procurava. Ninguém conseguia afirmar ao certo qual a sua idade, mas sabiam que era um espírito lúcido. E muito forte. Era uma espécie de conselheiro moral.
                   O esculápio, homem magro e de maneiras circunspectas, demonstrava muita dedicação para com os doentes, que não eram muitos, mas, como dizia ele, antes poucos enfermos que muitos falecidos. Um indivíduo solitário, embora bastante considerado pelas pessoas da aldeia.
                   O boticário, dono da botica, fazia parte desse grupo de figuras singulares que lá residiam. Homem forte, ao contrário do esculápio, vivia rodeado de amigos, aos quais muito havia ajudado com a manipulação de fórmulas curativas, ungüentos e emplastros quase miraculosos.
                   Outra figura masculina, o professor, como ficou conhecido, chegou naquela aldeia muito tempo depois que a neta da matriarca mais velha havia nascido. Vestia-se esportivamente, com roupas de cores vivas e um boné onde se lia, bordada em azul, a palavra mestre. Quando entrou pela única viela do lugar, foi logo recebido pelo boticário, que  se apressou em levá-lo à presença do alcaide. Embora espantados com o modo de trajar-se do mestre, estavam de acordo que a passagem do homem pela aldeia traria novos conhecimentos e mais sapiência para aquela gente simples. E o professor foi ficando.
                  A matriarca, chamada abuela por todos do local, mudou completamente de estado de espírito, depois que aquele homem a conheceu. Uma pessoa muito alegre e ativa, era como a consideravam. E que, de repente, passou a viver, durante a maior parte dos dias, tão ou mais circunspecta que o esculápio. Aliás, este último, por orientação da neta, foi por várias vezes visitá-la no intuito de saber e cuidar do estado da velha. Não constatou nenhum mal físico e a abuela pouco falou sobre o que realmente a afligia. E o tempo foi passando...
                   Blanca, a neta, contava por essa época, dezessete viçosos e cândidos anos. Uma pele fresca e acetinada, e cabelos negros encaracolados. Rosto e corpo em perfeita harmonia de formas e ângulos... Imagine tudo isso materializado em graça e um toque de ingenuidade silvestre, e você tem Blanca. Uma criança-mulher que encantava a todos. Casta e inspirando proteção, adorava a natureza e a liberdade de adolescente, cheia de sonhos bonitos e coloridos.
                   Numa atmosfera de bons costumes, a presença da virgem era admirada, mas com respeito. Respeito esse já inspirado pela avó desde seus tempos de moça. Criava a garota com zelo e dedicação. Em troca, Blanca era toda movida por um único objetivo: não dar motivos nem margem para qualquer tipo de mágoa que pudesse atingir o coração da abuela.
                   Pintado esse quadro, imagine o leitor as tintas e as personagens que lhe dão vida. Talvez eu me esqueça de algum detalhe da história, mas nada que lhe tire a compreensão... Mesmo porque é algo simples e que se passou de forma muito rápida.

(In: Pérolas de Amador, de César Pavezzi)

domingo, 24 de julho de 2011

IMAGENS FATAIS (Parte final)

         Noêmia e Sara conversavam, na casa desta última.
-         Eu acho que os dois andam trabalhando demais – observava a namorada de Armando, nervosa.
-         Eu também. Mas é dar muita moral pra eles ficar cobrando que a gente precisa passar mais tempo juntos. Queria te fazer uma proposta...
-         Acho que já posso adivinhar: sairmos nós duas juntas?
-         Melhor: vamos descer pra praia sozinhas no feriado. Que tal? – havia um tom de vingança na voz de Sara.
-         Ótimo! Nós podemos ficar com a turma do Rogério, aquele meu primo. Menina, ele tem um apartamento...
-         Certo, então está resolvido. Enquanto os “bonecos” trabalham, a gente se diverte.
-         É isso! – Noêmia sorria, contente.

*         *         *

                   Célio refletia muito, depois que o sócio deixou sua casa. “Desistir, adiar o serviço... Ele deve estar com muito medo, mesmo. Onde já se viu? Se deixar amedrontar por causa da visita desse investigadorzinho de um figa! Armando precisa se cuidar, se não vai acabar botando tudo a perder.”
                   Seu olhar parado tinha um brilho estranho. Misto de morbidez e revolta. Revolta por ter, no fundo do seu emocional, resquícios de um passado sofrido, triste e cheio de desamparos. Na verdade, ainda lhe doía relembrar o acidente que matara os pais. “Vai ser nossa segunda lua-de-mel” – diziam eles, antes da partida. Na estrada, uma curva, capotagem, explosão, cinzas. Tudo registrado coincidentemente por um cinegrafista amador que passava por lá no momento. Aquilo ainda falava alto nas reentrâncias de sua memória. E a sua revolta fazia um coro contínuo de vingança. Cada vez mais alto, cada vez mais perturbador... Vingança, vingança, era o que mais lhe dava prazer. O dinheiro era uma consequência. Só pensava em continuar sua desforra. Queria se vingar sempre, do destino, da fatalidade, talvez até de Deus... De tudo e de todos. Sempre. “Vingança!”
                   O telefone outra vez:
-         Alô!?
-         ...!
-         Oi, meu amor. Não atrapalha nada. Aliás, eu e o Armando já terminamos nosso papo.
-         ...?
-         Claro. Te vejo às oito, ‘tá bom?
-         ...!
-         Outro enorme pra você. Até a noite.

*         *         *

                   Já no apartamento de Rogério, as duas moças se preparavam para curtir o fim de semana prolongado. Aquele sete de setembro, numa terça-feira, vinha mesmo a calhar. Os namorados, como de outras vezes, diziam ter que trabalhar.
-         Vão se encontrar com a gente na terça. Foi a última coisa que Célio me disse – comentou Sara, ajeitando o biquíni.
-         Menos mal. Enquanto isso a gente aproveita pra conhecer a ilha do pai da namorada do Rogério.
-         Uau! Uma ilha?... E quem vai levar a turma toda pra lá?
-         Por acaso o Rogério emprestou uma lancha de um amigo. Vai ser perfeito...
-         Também acho. Vamos nessa que estou doida pra tomar um sol.
O dia estava esplendoroso. Céu azul, poucas nuvens e muito sol. Num hotel, na ponta da praia, Célio e Armando relembravam os planos.
-         Você vai hoje mesmo instalar as micro-cargas nas pedras lá daquela ilha – e apontava da janela, com o binóculo na mão.
-         Por que lá? – questionou o químico.
-         Porque com certeza alguns barcos e lanchas vão contorná-la ou procurar aportar para uma visita. A explosão vai parecer um choque com os rochedos e ninguém vai suspeitar de nada, pode crer!
Meia-noite e o jetsky de Armando cruzou devagar o espaço que separava a ilha da baía. Levava uma mochila com o equipamento e procurou instalar os explosivos com o maior cuidado. Olhou a sua volta, em todas as direções e executou rapidamente a sua parte do trabalho. Deslizou de volta para a praia, refletindo que definitivamente não iria mais participar daquelas coisas. Quantos pesadelos ainda iria ter, imaginando as vítimas que causara? Ultimamente, Célio vinha praticamente obrigando-o a continuar a tomar parte nos seus planos. Ele se sentia culpado, mas não o bastante para conseguir contrariar o amigo. Desde os tempos de colégio era assim. Célio arquitetava as manobras contra a turma e queria Armando do seu lado. Um sentimento misturado de admiração e temor convencia-o a seguir o colega.
Quando chegou ao hotel, o cinegrafista já dormia. Tinha um sono agitado, cheio de tremores. Parecia ter constantes pesadelos. Armando não entendia por que ele era tão obstinado em provocar aquelas mortes. Não podia ser só pelo dinheiro. Mas já estava determinado a participar pela última vez nos negócios. Diria isso ao rapaz na manhã seguinte. Demorou a pegar no sono...

                            *         *        *

-         ‘Tá legal, sócio. Fique na sua... Pode curtir uma praia que eu cuido do resto – falou Célio, momentos antes de partir para um lugar estratégico no seu jetsky.
-         Nunca mais, hein! É a última vez, cara – gritou, enquanto o outro se afastava.
O químico voltou ao quarto do hotel e, da janela através da qual se podia ver as pequenas ilhas, ficou observando pelo binóculo o movimento dos barcos. Havia uma lancha bastante luxuosa saindo da baía. Uma bandeira vermelha com um símbolo preto tremulava no auto da cabine de comando. A proa indicava que a embarcação ia na direção da ilha onde ele instalara os explosivos.
Deixou de lado o binóculo e usou o telefone para tentar falar com Noêmia. Alguém no apartamento lhe disse que ela tinha ido passear de lancha, até uma ilha. Um rasgo de intuição fez com ele pedisse mais detalhes sobre a embarcação. A voz do outro lado falou em proa alta, bandeira vermelha com símbolo preto, e o nome: Netuno, pintado bem grande no casco. Nem se lembrou dos celulares. Largou tudo e saiu correndo para o elevador do hotel. Chegou sem fôlego à garagem dos jetskies. Só pensava numa coisa: não podia deixar o barco explodir. A moça corria perigo por sua causa. Tinha que chegar antes nas pedras da ilha para desativar os micro-explosivos.
Célio pôde registrar, de onde estava, quando a explosão mandou lancha, jetsky, pedras, tudo para o ar. Grandes labaredas de fogo coroavam o espetáculo, enquanto ele terminava a filmagem. Uma expressão de profundo contentamento dominava seu rosto, durante a volta para o hotel. Desta vez, sem suspeitar sobre os frutos amargos colhidos por sua vingança.

(In: Pérolas de Amador, de César Pavezzi)

sábado, 9 de julho de 2011

IMAGENS FATAIS (Primeira Parte)

Sorriu maliciosamente quando terminou de ler a carta que a irmã lhe enviara. Pousou o envelope em cima da escrivaninha e ficou refletindo sobre os acontecimentos dos últimos meses.
Os feriados prolongados que vinham ocorrendo eram sinônimo de altos ganhos com a câmera de vídeo. Nunca imaginou que ser cinegrafista amador pudesse render tanto dinheiro. Até quando os seus trabalhos iam continuar é que não sabia. Eram arriscados e ele temia que a polícia um dia descobrisse suas manobras. E tinha o sócio, Armando, que também estava naquilo até o pescoço.
O telefone tocou:
-          Pronto...
-          ...!
-          É, estou sabendo... Não, vai ser tranquilo, como das outras vezes.
-          ...???
-          Que é isso, Armando?! Justo agora que a gente pegou o jeito do negócio, você vai medrar?
-          ...!
-          ‘Tá legal. Passa aqui pra gente combinar as coisas com cuidado. Vou ficar te esperando.
-          ...!
-          Até mais!
Voltou a pensar nos elogios da irmã, empolgada por ver as imagens que ele havia produzido dos acidentes nas estradas. “Trabalho super-profissional”, escrevia ela. “Sara deve estar orgulhosa de você”. Sara era a namorada de anos. Conhecera o rapaz na miséria e acompanhou sua trajetória de vida e os esforços que Célio fez para superar a perda dos pais. Mais do que ninguém ela achava que o namorado merecia o sucesso e os lucros que os vídeos vinham lhe proporcionando.
Acionou o aparelho de DVD que estava ao lado da escrivaninha e ficou revisando as imagens do último trabalho. O monitor mostrava a sequência dos carros passando e a barreira desmoronando, no momento exato em que um ônibus e dois automóveis despencavam encosta abaixo.
Alguém tocou a campainha da porta e ele desligou os aparelhos rapidamente. Parecia querer esconder aquelas imagens, como se elas guardassem um segredo mais do que profissional. Era um investigador do distrito policial mais próximo. Pediu que ele se sentasse e, com cautela, ofereceu-lhe um drinque.
-          A polícia anda pensando que os acidentes registrados pelo senhor têm sido criminosamente provocados... – jogou ele, depois das apresentações.
-          Em quê posso ajudá-los?
-          Não é muita coincidência estar nos locais, filmando, no exato instante em que os tais acidentes ocorrem?! – ele foi curto e grosso.
-          Devo entender que o senhor está me acusando?
-          Só estou tentando esclarecer as coisas. O que é que tem a dizer, senhor Célio?
-          Acredite ou não, foram felizes coincidências... Talvez eu tenha algum “dom” de ser atraído para essas tragédias – seu tom era irônico, mas seguro.
-          Onde esteve no último feriado?
-          Desci a serra, como todo mundo. Aluguei uma casa no litoral. Aliás, sempre faço isso. Por quê?
-          E aí, quando as coisas acontecem, o senhor está passando ao lado delas?
-          Nem sempre. Se viu meus vídeos nos jornais dever ter notado que os ângulos e as distâncias das imagens são bastante diversificados...
-          Para um cinegrafista amador o senhor planeja bem os serviços que faz – insinuou o agente, incisivo.
-          Eu não “planejo” nada, meu caro senhor policial. Daqui a pouco o senhor vai dizer que tenho um sócio que me ajuda a provocar aquelas mortes só pra que a gente possa ganhar dinheiro com as imagens. Ora, faça-me um favor – Célio fingiu irritação.
-          O senhor é quem está afirmando... Eu só vim conversar, esclarecer mais alguma coisa sobre os “acidentes”.
-          Pois bem, bateu em porta errada. O que sei está nos vídeos que fiz. O mais é trabalho para a polícia, já que suspeitam de algo – encerrou o rapaz, levantando-se da cadeira onde estava.
O investigador entendeu o gesto e despediu-se com um aceno rápido de cabeça. Cruzou com Armando no portão da casa.
-          Quem era? – quis saber o químico.
-          Um policial. Mas fique frio que não vai haver confusão nenhuma – observou o sócio.
-          Quem garante que não, Célio?! Eu te falei que eles estavam desconfiados... Acho que a gente devia dar um tempo – tinha um ar assustado.
-          Calma, sócio. Você sabe dos nossos objetivos... Vai ser só mais esta vez, eu garanto.
-          Você já disse isso várias vezes, e sempre quis continuar. Eu não quero me enrolar com a polícia. O que é que eu iria dizer à Noêmia, cara?! Não quero nem imaginar.
-          Para com isso, Armando. ‘Tá parecendo uma solteirona histérica, cara! Ninguém vai fazer nada contra nós. Sou eu quem faço as imagens, e o seu nome nem aparece. Nem nunca vai aparecer, fique tranquilo. A responsabilidade é só minha, entendeu?! Olha, toma esta bebida, se acalma e vamos trabalhar – e lhe ofereceu uma dose de vodca, enquanto falava.
-          ‘Tá certo. Mas é “sete de setembro” e acabou, combinado?
-          ‘Tá, ‘tá. Combinado. Fique frio. Presta atenção: desta vez nós vamos fazer a coisa acontecer no mar, certo? Vamos montar uma explosão da barco, uma batida nas rochas e “bum”. Hein?! O que você acha?
Armando balançou a cabeça e tentou prestar atenção no mapa das praias que o amigo lhe apontava. Os micro-explosivos já estavam prontos e eles eram os responsáveis por desencadear as sequências trágicas que Célio gravava. Na última vez, pequenas implosões nas encostas fizeram as barreiras desabar. Tudo calculado, até mesmo a distância em que o cinegrafista passaria do “acidente”. Havia um certo prazer para o rapaz em planejar e filmar aquelas cenas. Armando, como sócio, somente preparava o terreno e depois recebia uma porcentagem pela venda dos vídeos. Mas a sombra da polícia o amedrontava. Não bastasse ter de conviver com a contagem de várias mortes provocadas indiretamente por eles.
-          Entendeu tudo, sócio?! – Célio estava animado.
-          Mais ou menos. Vamos repassar – falou mecanicamente.

(In: Pérolas de Amador, de César Pavezzi)

domingo, 3 de julho de 2011

VIVER EM HARMONIA E EVITAR A NEGATIVIDADE

Harmonize suas ações com a maneira como a vida é
(Epicteto, filósofo latino)

         Não tente fazer suas próprias regras. Comporte-se, em todas as questões, grandes e públicas, pequenas e domésticas, de acordo com as leis da natureza. Harmonizar sua vontade com a natureza deveria ser o seu maior ideal.
         Onde você pode praticar esse ideal? Nos detalhes de sua vida diária, com suas tarefas e deveres pessoais e específicos. Quando você realizar suas tarefas, tais como tomar banho, por exemplo, faça-o tanto quanto lhe for possível em harmonia com a natureza. Quando comer, tanto quanto lhe for possível, faça-o em harmonia com a natureza. E assim por diante.
         O que fazemos é menos importante do que a maneira como o fazemos. Quando compreendemos realmente este princípio e vivemos de acordo com ele, embora as dificuldades continuem a surgir – já que também são parte da ordem divina –, ainda assim será possível se ter paz interior.


Evite adotar os pontos de vista negativos de outras pessoas
(Do mesmo Epicteto)

         Os pontos de vista e os problemas das outras pessoas podem ser contagiosos. Não pratique uma sabotagem contra si próprio adotando inconscientemente atitudes negativas e improdutivas pelo seu contato com os outros.
         Se você encontrar um amigo deprimido, um parente angustiado ou um colega de trabalho que passou por uma repentina mudança de sorte, tenha cuidado para não se sobrecarregar com o aparente infortúnio. Lembre-se de que você deve saber distinguir entre os acontecimentos e a sua interpretação desses acontecimentos. Pense assim: “O que faz essa pessoa sofrer não é o acontecimento em si, pois outra pessoa poderia não ser nem um pouco afetada por essa situação. O que a faz sofrer é a maneira de reagir que ela irrefletidamente adotou.”
         Acompanhar as pessoas que estimamos em obstinadas manifestações de sentimentos negativos não é uma demonstração de bondade ou amizade. Prestamos melhor serviço a nós mesmos e aos outros mantendo-nos desapegados e evitando reações melodramáticas.

(Textos extraídos do livro: A Arte de Viver, versões de Sharon Lebell.)

domingo, 19 de junho de 2011

DEDOS DAS MÃOS (Parte final)


Na manhã da segunda-feira, a esposa de Caio não viajou. Preocupada com o que poderia sinistramente ocorrer ao marido, procurou o Diretor da Fundação Educativa para pedir auxílio. A secretária foi taxativa:
-         Sem mencionar o assunto, que a senhora diz ser tão urgente, sinto muito mas não posso interferir na agenda dele.
-         Se disser que é a esposa do Caio, Relações Públicas, ele vai me receber – insistiu Verena.
-         Sinto muito, mesmo. É praxe adiantar o assunto... Só assim talvez o Diretor tente lhe facilitar a questão dos horários.
-         É assunto de... – interrompeu bruscamente o “vida ou morte”, imaginando que isto já seria motivo para especulação, o que redundaria em pânico na comunidade toda. – Bem, eu volto outra hora, pode deixar.
-         Se a senhora prefere assim. Até logo.
-         Tchau! – Verena tentou bolar um jeito de falar com o homem, enquanto saía da sala.
Lembrou-se da mulher do Diretor, uma senhora muito simpática e que, com certeza, saberia compreender seu apelo.
-         Bom dia, senhora Bérgamo. Como vai?
-         Bom dia, estou bem, obrigada. Você, quem é? – quis saber a mulher, surpresa, abrindo a porta do apartamento.
-         Meu nome é Verena e gostaria de pedir um favor especial. Posso entrar?
-         Claro, querida, claro. Você aceita um café?
-         Sabe, dona Jéssica, agradeço, mas o assunto é bastante urgente. Vou lhe contar tudo...
Depois de ouvir, espantada, as preocupações da moça, Jéssica ligou imediatamente ao marido, pedindo a ele que a recebesse. Antes que ela saísse, abraçou-a e lhe confidenciou carinhosamente que seu marido podia ser tudo, menos injusto com seus funcionários.

                            *       *       *

Não dormi direito, tive sobressaltos durante a noite toda e estava péssimo naquela manhã. Jandir veio, sozinho, falar comigo:
-         E então, quer abrir o bico ou prefere esgotar o prazo?
-         Não sei nem ao certo o que vocês precisam saber... – desconversei.
-         Não se faça de besta, Caio. Meus companheiros estão sendo muito pacientes com você pelo fato de ser meu irmão. Já era pra você estar todo dopado, cheio de marcas e, quem sabe, até tomado uns choquinhos pra se animar a falar. Você é um cara inteligente... Já devia prever que nós queríamos um ponto estratégico daqueles. Podia começar dizendo o número de vigilantes e o turno que eles fazem no fim de semana – sugeriu ele, sempre cínico.
Fiquei olhando para aquele rosto e, em segundos, rolava pela minha cabeça o filme da nossa infância. Quantas vezes a gente tinha brincado juntos, se safado de encrencas, se ajudado na hora de justificar nossas malandragens, nossas artes. Eu, mais velho três anos, nunca podia imaginar que Jandir fosse se tornar o que era... Ele tinha sim, mil motivos para revolta. Foi até bastante rebelde na adolescência... Mas chegar a esse ponto. Ali, na minha frente, me usando para uma causa que talvez nem ele soubesse a que servia. A mim, utilizando a mim, seu próprio irmão.
-         Eu não posso amar um irmão que compactua com esse Sistema que aí está – falou, de repente. – Eu não consigo imaginar como é que você aguenta trabalhar para o governo e ficar bancando o “burrinho de presépio" dessa gente...
-         Já ouvi essas histórias antes. Só tenho uma coisa pra te dizer: prefiro estar dentro do Sistema e lutar para mudar algumas coisas do que abandonar as coisas nas quais acredito.
-         Uma vez reacionário, sempre reacionário. Mas vamos ao que interessa: vai ou não vai começar a dizer o que sabe sobre a segurança da Fundação? – o tom era autoritário, meio nervoso até.
-         Quem me garante que vou sair dessa ileso? Quero...
-         Você não está em condições de querer nada! Ninguém aqui vai garantir coisa nenhuma! Comece a falar.
Permaneci mudo e atônito diante do radicalismo dele. Foram vários minutos de silêncio entre nós. Atrás da poltrona se ouvia a respiração ofegante de um homem que lutava entre a lembrança do que fôramos e o que significávamos um para o outro agora. Ele saiu da sala, mas retornou logo. Tinha um certo ar de triunfo.
-         Eu ‘tava sendo paciente... Já que não tem jeito, vamos ter que apelar para sua querida “mulherzinha”.
-         O que é que vocês vão fazer?! Deixem minha família fora disso! – eu dava arrancos na poltrona, tentando me mover.
-         Ela vai saber te aconselhar pra informar o que a gente precisa – disse e saiu, batendo a porta.
As cordas de náilon me apertavam o peito, os pulsos e o tornozelo. Não adiantava me debater, só fazia machucar mais e mais. E a sede começava a me perturbar. Comecei a rezar, com todas as forças, desejando que Verena e as crianças já estivessem a caminho do litoral.

                            *        *       *

Depois de constatar que Caio não chegara até a chácara do amigo, onde deveria ter se escondido, Verena confirmou ao Diretor da Fundação que o marido provavelmente fora raptado.
-         Calma, dona Verena. Nós vamos falar com a polícia... Não há outra maneira – decidiu o homem, com ar grave.
-         Mas isso pode provocar pânico, medo, sei lá, na comunidade toda – lembrou a mulher. – E Caio sempre se preocupou em resolver as coisas sem... Ah, meu Deus, como será que ele está agora?!
-         Ouça, eu tenho contatos muito importantes na polícia e lhe garanto que também é de meu interesse solucionar esta situação sem estardalhaço. Vou lhe dar este bilhete... Ligo para o detetive que cuidará do caso, enquanto a senhora vai até lá.
Ela agradeceu muito e saiu apressada, guardando o bilhete na bolsa. Pensava sobre o que fariam a Caio, se o tivessem agarrado. Ele era teimoso e, por certo, seria torturado. ‘Torturado, meu Deus!’ O clima no país até levava a pensar nisso, sim. Será que a polícia poderia ajudar? Alguma coisa, qualquer coisa tinha que ser feita para salvar seu marido.
-         Vamos fazer tudo... E com a maior discrição, não se preocupe – prometeu o investigador, quando ela chegou.
-         O Caio está em perigo... Tenho certeza. Ele... ele não me ligou hoje pela manhã, como combinado. Não esteve com o amigo, nem está em casa.
-         Já estou sabendo da história. E vou lhe orientar sobre o que a senhora pode fazer para nos ajudar a encontrá-lo, certo? Preste atenção...

*        *        *

Jandir estava armado quando os policiais entraram na casa, poucos minutos depois que Verena foi trazida. Entre surpreso e aliviado, ainda tentei livrar a cara do meu irmão.
-         Este homem seguiu minha mulher e veio me ajudar – consegui dizer, antes que o algemassem.
-         Isto é verdade, rapaz? – inquiriu o investigador, indeciso.
-         Não. Aliás, por que eu iria ajudar um “cara” que nem conheço? Eu sou o chefe aqui, detetive – retrucou, com desprezo, enquanto estendia os pulsos.
Senti que Verena tremia, ao me abraçar. Depois ela me contou sobre um micro-sinalizador colocado em sua roupa e a forma como ajudou a polícia. Eu não conseguia sorrir e sabia o quanto esta mulher me compreendia.

(In: Pérolas de Amador, de César Pavezzi)

sábado, 11 de junho de 2011

DEDOS DAS MÃOS (Parte 2)

Fui voltando aos poucos à realidade. Minha cabeça pesava, depois daquele sono forçado. Quando abri completamente os olhos, percebi que estava recostado numa poltrona confortável. Não conhecia aquela sala e o ambiente era pouco iluminado. Ouvi passos no corredor, lá fora. Parecia que alguém chegava para me interrogar. Um homem alto, moreno, de óculos escuros e barba, entrou, acompanhado dos dois sujeitos que andavam me vigiando. Nenhum dos três mostrava, mas eu sabia que estavam armados. E claro que eu estava amedrontado. O de óculos ficou me analisando detidamente por alguns minutos, sem falar nada. Eu não podia ver seu rosto completamente por causa da falta de claridade. Minha cabeça era um redemoinho de interrogações e pânico. O que iriam fazer comigo? Quem era aquele homem que, na certa, chefiava o bando? Seria sequestro ou havia implicações políticas? A perspectiva de tortura me deixava revoltado... Então um cidadão como eu, que trabalhava honestamente, pai de família sério e dedicado, tinha que passar por tudo aquilo, meu Deus?! Deus, aliás, não podia ter nada a ver com aquilo... Era coisa de homens, políticos, rebeldes, inconsequências do poder.
-         Ora, ora, se não é o meu maninho. Quem diria que a gente ia precisar se encontrar nestas condições, não é? – o homem tirou os óculos e se aproximou do quebra-luz ligado, ao lado da poltrona.
Aquela voz, a cicatriz no nariz, só podiam ser dele. Absurdamente, minhas suspeitas se materializavam ali, na minha frente. Minha surpresa naquele instante me levou a sentir que eu estava amarrado à poltrona.
-         Jandir. É, eu devia saber. Que é que você quer de mim? – tentei parecer forte.
-         Calma. Vamos conversar um pouquinho... Não quer conhecer a história da nossa causa primeiro? Você precisa se politizar, “maninho”...
-         Seja lá qual for, não me interessa. Só quero sair daqui e cuidar da minha vida. Não vou me envolver com suas ideologias. Faça um favor a você mesmo e me solte!
-         Muito apressado – o tom era sarcástico. – Por mim, você nem estaria aqui, mas tenho que servir a nossa causa: meu grupo precisa de certas informações e achou que seria mais fácil obtê-las se a coisa ficasse “em família”, compreende?
-         Você não sabe o significado desta palavra. Não devia nem pronunciá-la. E quer saber: não tenho informações de espécie alguma pra passar a vocês – eu o encarava com firmeza.
-         Tem, ah, tem sim. E o tempo de dizê-las esgota amanhã, ao meio-dia. Você vai ter a noite toda pra refletir. Pense em Verena, nas crianças, por exemplo. Uma família tão “linda” a sua...
-         Você não ousaria tocar neles, seu porco! Ou eu...
-         Boca fechada, “doutor” Caio! As exigências quem faz somos nós. Amanhã mesmo a gente vai invadir alguns prédios da região... E no próximo sábado, estaremos prontos para a “sua”... Fundação. Eu garanto. Até amanhã – ele sorriu ironicamente e saiu.
Um dos homens chegou a erguer o braço para me bater, mas o outro o segurou. Saíram, e ouvi trancarem a porta pelo lado de fora. Um temor profundo tomou conta da minha mente quando comecei a pensar no que poderiam fazer a minha família. Meu irmão estava obcecado pela guerrilha. Nunca imaginei que pudesse liderar uma operação daquelas. Verena tinha razão: ele tinha estado no noticiário por diversas ocasiões. Eu tinha que arranjar um modo de dissuadi-lo do que pretendia fazer. Pelo menos, deixar a mim e a Verena em paz.

(In: Pérolas de Amador - César Pavezzi)

domingo, 5 de junho de 2011

DEDOS DAS MÃOS (Parte I)

Mais dia, menos dia, eles iam me pegar. Derramei café na toalha da mesa pela terceira vez naquela semana. Verena me chamou a atenção de novo:
-         Que é que ‘tá havendo, hein?! Você anda muito tenso...
-         ‘Tô preocupado com uns problemas da Associação...
-         Ah, não! Essa “bendita” Associação outra vez. Vê se desliga um pouco. Desse jeito você não vai nem aproveitar suas férias direito – lembrou ela.
-         ‘Tá, ‘tá certo. Tem razão, acho que a viagem vai ajudar...
-         E aí? Já acertou os detalhes todos? Você sabe que eu ainda tenho que preparar a roupa das crianças e deixar as contas em dia... Não dá pra cuidar de outras coisas.
-         Vou comprar as passagens hoje mesmo. Na segunda, a gente embarca. Fique tranquila.
Tranquila... Tranquilo, era como eu gostaria de estar. Eu já tinha alertado o pessoal da Associação por diversas vezes: aquela situação era inadmissível. Se continuasse daquele jeito, ia acontecer uma tragédia...
Eu trabalhava numa Instituição Pública muito conhecida na região. Todo o espaço físico que ela ocupava nos arredores da cidade representava, naqueles tempos de tensão política, um excelente ponto estratégico. As manifestações de insatisfações, coordenadas por pequenos grupos fortemente armados, vinham aumentando de dimensão e amplitude. Em breve, a guerrilha ia se tornar constante na região... O interior não ia ficar isento de ser contagiado pelas tensões e conflitos sociais que assolavam as grandes cidades.
Um pânico, ainda que moderado, começava a se apoderar das cabeças mais bem informadas do lugar. Nós, da Associação de Funcionários, tínhamos discutido o assunto nas várias reuniões que ocorriam na época.
O que era inadmissível, repito, tinha a ver com o fato de que a Fundação Educativa, onde nós trabalhávamos, contava com somente dois vigilantes no final de semana. Dois vigias que não conseguiam, logicamente, rastrear a área toda, enquanto estavam de plantão. Reforçar a vigilância, pela segurança do local, era fundamental. Nem os pequenos furtos ocorridos podiam ser evitados, justamente por não se contar com um contigente maior de guardas. E agora, com a perspectiva de uma invasão da guerrilha, essa necessidade se tornava mais e mais premente.
Eu trabalhava como Relações Públicas, na Fundação, e bem por isso, fui indicado como secretário da Associação. Nas reuniões da entidade, somente o Presidente, eu e mais quatro representantes participávamos. Nós éramos os únicos, além do Diretor da Fundação, que sabíamos sobre a falta de seguranças existente no lugar. Aliás, preocupado ao extremo com as consequências perigosas que a situação pudesse acarretar, eu também já havia feito sugestões ao Diretor sobre a necessidade de reforçar a vigilância, contratando novos guardas.
-         A gente sempre trabalhou bem com meia dúzia de homens nesse serviço – explicou ele. – A comunidade nem se preocupa em checar se temos poucos ou muitos guardas na Fundação... E o sigilo, quanto a isso, já lhes dá uma certa segurança.
-         Mas, senhor, um dia esse sigilo pode ser quebrado...
-         Não acredito. Só eu e os senhores da Associação sabemos, com certeza, a exatidão dessas informações. E creio que são de absoluta confiança... Ou não são? – tinha a testa vincada e seu tom beirava a ironia.
-         Claro, senhor. Quer dizer que não existe nenhuma possibilidade de novas contratações?
-         Não. E compreenda que, num momento político como esse, não há condições de abrir concurso, seleção ou o que quer que seja. Chego a pensar se não é fantasia dos senhores, esse medo todo... Se me der licença, tenho processos para verificar e preciso ficar à vontade – ele se levantou e começou a caminhar em direção à porta.

-         Caio, ei, Caio! Parece que ‘tá dormindo sentado, homem – Verena me trouxe de volta ao presente. – Você vai ou não vai comprar as passagens?
-         Tem razão, amor. Já estou indo, já estou indo – peguei o paletó e fui saindo.
No caminho para o Terminal Rodoviário, continuei a refletir. Eu tinha um irmão que havia sumido por anos da cidade, com umas ideias políticas meio atravessadas. Era um revoltado e sempre me dava um arrepio na espinha quando imaginava em que ele poderia estar metido, diante daquelas manifestações de crise que vinham ocorrendo. Eis a síntese do meu medo: Jandir sabia que eu trabalhava na Fundação e que conhecia determinadas informações de caráter altamente confidencial. Mesmo sendo meu parente, sei que o mesmo faria qualquer coisa pela causa que defendia. Verena comentara comigo, por diversas vezes, que ele tinha aparecido na televisão como suspeito de liderar um dos grupos guerrilheiros que agiam no interior do Estado. Que, apesar da barba e dos óculos, ela pôde perceber quem era pela pequena cicatriz que viu no nariz dele. Achei que ela fantasiava, depois me dei conta que eu é que não queria acreditar.
-         Obrigado – agradeci pelo troco ao rapaz da agência, pegando as passagens.
Aquela viagem talvez me tranquilizasse. Em certos momentos, eu pensava estar ficando paranoico, com todas essas desconfianças. Mas, se meu irmão estava metido nestas agitações e conflitos, logo eu seria procurado. Eles iam me pegar, tinha absoluta certeza. Afinal, eu atuava no interior do melhor ponto estratégico da região. Através de Jandir, era fácil me localizar. Não, não. Não era paranoia minha. O retrovisor começou a me mostrar que minhas conclusões tinham fundamento. Alguém me seguia e já fazia dez minutos.
Em casa, enquanto conversava com Verena, olhei pela janela do quarto e vi o carro parado, com dois homens barbudos, na esquina. Prevendo o inevitável, resolvi expor tudo a minha mulher e traçar um plano de fuga.
-         E você vai ficar na cidade, Caio?
-         Por enquanto, meu amor. Eu vou dar um jeito de despistá-los e encontro vocês, na semana que vem.
-         Nada disso. Eu não vou sair de férias tranquila, tendo que esperar a solução desse problema... Você vai com a gente.
-         Você não entendeu. Não sei a dimensão do perigo que isso pode representar... As crianças e você têm que ficar em segurança. Faça exatamente como eu orientei. Pelo amor de Deus, Verena! – eu já estava entrando em desespero.
Ela me olhou assustada e moveu a cabeça em concordância. No outro dia, domingo, quando pôs nossos filhos no carro, pude ver duas lágrimas discretas rolarem de seus olhos. Os homens continuaram na esquina por toda a noite e, como não saíssem em perseguição ao nosso carro, concluí que estavam interessados em vigiar a mim.
Não saí o dia todo e, à noite, Verena me ligou. Disse que estava tudo bem, mas que sentia medo do que pudesse me acontecer. Eu a tranquilizei e reforcei a necessidade de que pegasse o ônibus na segunda. Sozinho, havia mais chances de me safar daquela perseguição.
O plano era sair pelos fundos, driblando os “caras” da esquina, pegar um táxi e me esconder, por uns dias, na chácara de um amigo. Depois, ele me levaria clandestinamente na sua camionete até a cidadezinha mais próxima. De lá, eu tomaria o ônibus para o litoral, onde encontraria minha família. Quando as férias acabassem, com certeza a polícia já teria interferido na ação do grupo que tentava me cercar.
Deixei a luz do banheiro acesa para que pensassem que eu ainda permanecia na casa e me arrastei da porta da cozinha até o muro do vizinho. Na rua de trás do meu quarteirão, comecei a me angustiar com a demora do táxi. Vi os farois brilharem, ao dobrar a esquina, e me animei. Não era o táxi e eu fui vendado e amarrado pelos dois homens que saltaram do carro. Tentei berrar, mas logo senti uma picada no pescoço e tudo apagou.

(Mais um conto de minha autoria extraído do livro: Pérolas de Amador - César Pavezzi)

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