sábado, 9 de julho de 2011

IMAGENS FATAIS (Primeira Parte)

Sorriu maliciosamente quando terminou de ler a carta que a irmã lhe enviara. Pousou o envelope em cima da escrivaninha e ficou refletindo sobre os acontecimentos dos últimos meses.
Os feriados prolongados que vinham ocorrendo eram sinônimo de altos ganhos com a câmera de vídeo. Nunca imaginou que ser cinegrafista amador pudesse render tanto dinheiro. Até quando os seus trabalhos iam continuar é que não sabia. Eram arriscados e ele temia que a polícia um dia descobrisse suas manobras. E tinha o sócio, Armando, que também estava naquilo até o pescoço.
O telefone tocou:
-          Pronto...
-          ...!
-          É, estou sabendo... Não, vai ser tranquilo, como das outras vezes.
-          ...???
-          Que é isso, Armando?! Justo agora que a gente pegou o jeito do negócio, você vai medrar?
-          ...!
-          ‘Tá legal. Passa aqui pra gente combinar as coisas com cuidado. Vou ficar te esperando.
-          ...!
-          Até mais!
Voltou a pensar nos elogios da irmã, empolgada por ver as imagens que ele havia produzido dos acidentes nas estradas. “Trabalho super-profissional”, escrevia ela. “Sara deve estar orgulhosa de você”. Sara era a namorada de anos. Conhecera o rapaz na miséria e acompanhou sua trajetória de vida e os esforços que Célio fez para superar a perda dos pais. Mais do que ninguém ela achava que o namorado merecia o sucesso e os lucros que os vídeos vinham lhe proporcionando.
Acionou o aparelho de DVD que estava ao lado da escrivaninha e ficou revisando as imagens do último trabalho. O monitor mostrava a sequência dos carros passando e a barreira desmoronando, no momento exato em que um ônibus e dois automóveis despencavam encosta abaixo.
Alguém tocou a campainha da porta e ele desligou os aparelhos rapidamente. Parecia querer esconder aquelas imagens, como se elas guardassem um segredo mais do que profissional. Era um investigador do distrito policial mais próximo. Pediu que ele se sentasse e, com cautela, ofereceu-lhe um drinque.
-          A polícia anda pensando que os acidentes registrados pelo senhor têm sido criminosamente provocados... – jogou ele, depois das apresentações.
-          Em quê posso ajudá-los?
-          Não é muita coincidência estar nos locais, filmando, no exato instante em que os tais acidentes ocorrem?! – ele foi curto e grosso.
-          Devo entender que o senhor está me acusando?
-          Só estou tentando esclarecer as coisas. O que é que tem a dizer, senhor Célio?
-          Acredite ou não, foram felizes coincidências... Talvez eu tenha algum “dom” de ser atraído para essas tragédias – seu tom era irônico, mas seguro.
-          Onde esteve no último feriado?
-          Desci a serra, como todo mundo. Aluguei uma casa no litoral. Aliás, sempre faço isso. Por quê?
-          E aí, quando as coisas acontecem, o senhor está passando ao lado delas?
-          Nem sempre. Se viu meus vídeos nos jornais dever ter notado que os ângulos e as distâncias das imagens são bastante diversificados...
-          Para um cinegrafista amador o senhor planeja bem os serviços que faz – insinuou o agente, incisivo.
-          Eu não “planejo” nada, meu caro senhor policial. Daqui a pouco o senhor vai dizer que tenho um sócio que me ajuda a provocar aquelas mortes só pra que a gente possa ganhar dinheiro com as imagens. Ora, faça-me um favor – Célio fingiu irritação.
-          O senhor é quem está afirmando... Eu só vim conversar, esclarecer mais alguma coisa sobre os “acidentes”.
-          Pois bem, bateu em porta errada. O que sei está nos vídeos que fiz. O mais é trabalho para a polícia, já que suspeitam de algo – encerrou o rapaz, levantando-se da cadeira onde estava.
O investigador entendeu o gesto e despediu-se com um aceno rápido de cabeça. Cruzou com Armando no portão da casa.
-          Quem era? – quis saber o químico.
-          Um policial. Mas fique frio que não vai haver confusão nenhuma – observou o sócio.
-          Quem garante que não, Célio?! Eu te falei que eles estavam desconfiados... Acho que a gente devia dar um tempo – tinha um ar assustado.
-          Calma, sócio. Você sabe dos nossos objetivos... Vai ser só mais esta vez, eu garanto.
-          Você já disse isso várias vezes, e sempre quis continuar. Eu não quero me enrolar com a polícia. O que é que eu iria dizer à Noêmia, cara?! Não quero nem imaginar.
-          Para com isso, Armando. ‘Tá parecendo uma solteirona histérica, cara! Ninguém vai fazer nada contra nós. Sou eu quem faço as imagens, e o seu nome nem aparece. Nem nunca vai aparecer, fique tranquilo. A responsabilidade é só minha, entendeu?! Olha, toma esta bebida, se acalma e vamos trabalhar – e lhe ofereceu uma dose de vodca, enquanto falava.
-          ‘Tá certo. Mas é “sete de setembro” e acabou, combinado?
-          ‘Tá, ‘tá. Combinado. Fique frio. Presta atenção: desta vez nós vamos fazer a coisa acontecer no mar, certo? Vamos montar uma explosão da barco, uma batida nas rochas e “bum”. Hein?! O que você acha?
Armando balançou a cabeça e tentou prestar atenção no mapa das praias que o amigo lhe apontava. Os micro-explosivos já estavam prontos e eles eram os responsáveis por desencadear as sequências trágicas que Célio gravava. Na última vez, pequenas implosões nas encostas fizeram as barreiras desabar. Tudo calculado, até mesmo a distância em que o cinegrafista passaria do “acidente”. Havia um certo prazer para o rapaz em planejar e filmar aquelas cenas. Armando, como sócio, somente preparava o terreno e depois recebia uma porcentagem pela venda dos vídeos. Mas a sombra da polícia o amedrontava. Não bastasse ter de conviver com a contagem de várias mortes provocadas indiretamente por eles.
-          Entendeu tudo, sócio?! – Célio estava animado.
-          Mais ou menos. Vamos repassar – falou mecanicamente.

(In: Pérolas de Amador, de César Pavezzi)

domingo, 3 de julho de 2011

VIVER EM HARMONIA E EVITAR A NEGATIVIDADE

Harmonize suas ações com a maneira como a vida é
(Epicteto, filósofo latino)

         Não tente fazer suas próprias regras. Comporte-se, em todas as questões, grandes e públicas, pequenas e domésticas, de acordo com as leis da natureza. Harmonizar sua vontade com a natureza deveria ser o seu maior ideal.
         Onde você pode praticar esse ideal? Nos detalhes de sua vida diária, com suas tarefas e deveres pessoais e específicos. Quando você realizar suas tarefas, tais como tomar banho, por exemplo, faça-o tanto quanto lhe for possível em harmonia com a natureza. Quando comer, tanto quanto lhe for possível, faça-o em harmonia com a natureza. E assim por diante.
         O que fazemos é menos importante do que a maneira como o fazemos. Quando compreendemos realmente este princípio e vivemos de acordo com ele, embora as dificuldades continuem a surgir – já que também são parte da ordem divina –, ainda assim será possível se ter paz interior.


Evite adotar os pontos de vista negativos de outras pessoas
(Do mesmo Epicteto)

         Os pontos de vista e os problemas das outras pessoas podem ser contagiosos. Não pratique uma sabotagem contra si próprio adotando inconscientemente atitudes negativas e improdutivas pelo seu contato com os outros.
         Se você encontrar um amigo deprimido, um parente angustiado ou um colega de trabalho que passou por uma repentina mudança de sorte, tenha cuidado para não se sobrecarregar com o aparente infortúnio. Lembre-se de que você deve saber distinguir entre os acontecimentos e a sua interpretação desses acontecimentos. Pense assim: “O que faz essa pessoa sofrer não é o acontecimento em si, pois outra pessoa poderia não ser nem um pouco afetada por essa situação. O que a faz sofrer é a maneira de reagir que ela irrefletidamente adotou.”
         Acompanhar as pessoas que estimamos em obstinadas manifestações de sentimentos negativos não é uma demonstração de bondade ou amizade. Prestamos melhor serviço a nós mesmos e aos outros mantendo-nos desapegados e evitando reações melodramáticas.

(Textos extraídos do livro: A Arte de Viver, versões de Sharon Lebell.)

domingo, 19 de junho de 2011

DEDOS DAS MÃOS (Parte final)


Na manhã da segunda-feira, a esposa de Caio não viajou. Preocupada com o que poderia sinistramente ocorrer ao marido, procurou o Diretor da Fundação Educativa para pedir auxílio. A secretária foi taxativa:
-         Sem mencionar o assunto, que a senhora diz ser tão urgente, sinto muito mas não posso interferir na agenda dele.
-         Se disser que é a esposa do Caio, Relações Públicas, ele vai me receber – insistiu Verena.
-         Sinto muito, mesmo. É praxe adiantar o assunto... Só assim talvez o Diretor tente lhe facilitar a questão dos horários.
-         É assunto de... – interrompeu bruscamente o “vida ou morte”, imaginando que isto já seria motivo para especulação, o que redundaria em pânico na comunidade toda. – Bem, eu volto outra hora, pode deixar.
-         Se a senhora prefere assim. Até logo.
-         Tchau! – Verena tentou bolar um jeito de falar com o homem, enquanto saía da sala.
Lembrou-se da mulher do Diretor, uma senhora muito simpática e que, com certeza, saberia compreender seu apelo.
-         Bom dia, senhora Bérgamo. Como vai?
-         Bom dia, estou bem, obrigada. Você, quem é? – quis saber a mulher, surpresa, abrindo a porta do apartamento.
-         Meu nome é Verena e gostaria de pedir um favor especial. Posso entrar?
-         Claro, querida, claro. Você aceita um café?
-         Sabe, dona Jéssica, agradeço, mas o assunto é bastante urgente. Vou lhe contar tudo...
Depois de ouvir, espantada, as preocupações da moça, Jéssica ligou imediatamente ao marido, pedindo a ele que a recebesse. Antes que ela saísse, abraçou-a e lhe confidenciou carinhosamente que seu marido podia ser tudo, menos injusto com seus funcionários.

                            *       *       *

Não dormi direito, tive sobressaltos durante a noite toda e estava péssimo naquela manhã. Jandir veio, sozinho, falar comigo:
-         E então, quer abrir o bico ou prefere esgotar o prazo?
-         Não sei nem ao certo o que vocês precisam saber... – desconversei.
-         Não se faça de besta, Caio. Meus companheiros estão sendo muito pacientes com você pelo fato de ser meu irmão. Já era pra você estar todo dopado, cheio de marcas e, quem sabe, até tomado uns choquinhos pra se animar a falar. Você é um cara inteligente... Já devia prever que nós queríamos um ponto estratégico daqueles. Podia começar dizendo o número de vigilantes e o turno que eles fazem no fim de semana – sugeriu ele, sempre cínico.
Fiquei olhando para aquele rosto e, em segundos, rolava pela minha cabeça o filme da nossa infância. Quantas vezes a gente tinha brincado juntos, se safado de encrencas, se ajudado na hora de justificar nossas malandragens, nossas artes. Eu, mais velho três anos, nunca podia imaginar que Jandir fosse se tornar o que era... Ele tinha sim, mil motivos para revolta. Foi até bastante rebelde na adolescência... Mas chegar a esse ponto. Ali, na minha frente, me usando para uma causa que talvez nem ele soubesse a que servia. A mim, utilizando a mim, seu próprio irmão.
-         Eu não posso amar um irmão que compactua com esse Sistema que aí está – falou, de repente. – Eu não consigo imaginar como é que você aguenta trabalhar para o governo e ficar bancando o “burrinho de presépio" dessa gente...
-         Já ouvi essas histórias antes. Só tenho uma coisa pra te dizer: prefiro estar dentro do Sistema e lutar para mudar algumas coisas do que abandonar as coisas nas quais acredito.
-         Uma vez reacionário, sempre reacionário. Mas vamos ao que interessa: vai ou não vai começar a dizer o que sabe sobre a segurança da Fundação? – o tom era autoritário, meio nervoso até.
-         Quem me garante que vou sair dessa ileso? Quero...
-         Você não está em condições de querer nada! Ninguém aqui vai garantir coisa nenhuma! Comece a falar.
Permaneci mudo e atônito diante do radicalismo dele. Foram vários minutos de silêncio entre nós. Atrás da poltrona se ouvia a respiração ofegante de um homem que lutava entre a lembrança do que fôramos e o que significávamos um para o outro agora. Ele saiu da sala, mas retornou logo. Tinha um certo ar de triunfo.
-         Eu ‘tava sendo paciente... Já que não tem jeito, vamos ter que apelar para sua querida “mulherzinha”.
-         O que é que vocês vão fazer?! Deixem minha família fora disso! – eu dava arrancos na poltrona, tentando me mover.
-         Ela vai saber te aconselhar pra informar o que a gente precisa – disse e saiu, batendo a porta.
As cordas de náilon me apertavam o peito, os pulsos e o tornozelo. Não adiantava me debater, só fazia machucar mais e mais. E a sede começava a me perturbar. Comecei a rezar, com todas as forças, desejando que Verena e as crianças já estivessem a caminho do litoral.

                            *        *       *

Depois de constatar que Caio não chegara até a chácara do amigo, onde deveria ter se escondido, Verena confirmou ao Diretor da Fundação que o marido provavelmente fora raptado.
-         Calma, dona Verena. Nós vamos falar com a polícia... Não há outra maneira – decidiu o homem, com ar grave.
-         Mas isso pode provocar pânico, medo, sei lá, na comunidade toda – lembrou a mulher. – E Caio sempre se preocupou em resolver as coisas sem... Ah, meu Deus, como será que ele está agora?!
-         Ouça, eu tenho contatos muito importantes na polícia e lhe garanto que também é de meu interesse solucionar esta situação sem estardalhaço. Vou lhe dar este bilhete... Ligo para o detetive que cuidará do caso, enquanto a senhora vai até lá.
Ela agradeceu muito e saiu apressada, guardando o bilhete na bolsa. Pensava sobre o que fariam a Caio, se o tivessem agarrado. Ele era teimoso e, por certo, seria torturado. ‘Torturado, meu Deus!’ O clima no país até levava a pensar nisso, sim. Será que a polícia poderia ajudar? Alguma coisa, qualquer coisa tinha que ser feita para salvar seu marido.
-         Vamos fazer tudo... E com a maior discrição, não se preocupe – prometeu o investigador, quando ela chegou.
-         O Caio está em perigo... Tenho certeza. Ele... ele não me ligou hoje pela manhã, como combinado. Não esteve com o amigo, nem está em casa.
-         Já estou sabendo da história. E vou lhe orientar sobre o que a senhora pode fazer para nos ajudar a encontrá-lo, certo? Preste atenção...

*        *        *

Jandir estava armado quando os policiais entraram na casa, poucos minutos depois que Verena foi trazida. Entre surpreso e aliviado, ainda tentei livrar a cara do meu irmão.
-         Este homem seguiu minha mulher e veio me ajudar – consegui dizer, antes que o algemassem.
-         Isto é verdade, rapaz? – inquiriu o investigador, indeciso.
-         Não. Aliás, por que eu iria ajudar um “cara” que nem conheço? Eu sou o chefe aqui, detetive – retrucou, com desprezo, enquanto estendia os pulsos.
Senti que Verena tremia, ao me abraçar. Depois ela me contou sobre um micro-sinalizador colocado em sua roupa e a forma como ajudou a polícia. Eu não conseguia sorrir e sabia o quanto esta mulher me compreendia.

(In: Pérolas de Amador, de César Pavezzi)

sábado, 11 de junho de 2011

DEDOS DAS MÃOS (Parte 2)

Fui voltando aos poucos à realidade. Minha cabeça pesava, depois daquele sono forçado. Quando abri completamente os olhos, percebi que estava recostado numa poltrona confortável. Não conhecia aquela sala e o ambiente era pouco iluminado. Ouvi passos no corredor, lá fora. Parecia que alguém chegava para me interrogar. Um homem alto, moreno, de óculos escuros e barba, entrou, acompanhado dos dois sujeitos que andavam me vigiando. Nenhum dos três mostrava, mas eu sabia que estavam armados. E claro que eu estava amedrontado. O de óculos ficou me analisando detidamente por alguns minutos, sem falar nada. Eu não podia ver seu rosto completamente por causa da falta de claridade. Minha cabeça era um redemoinho de interrogações e pânico. O que iriam fazer comigo? Quem era aquele homem que, na certa, chefiava o bando? Seria sequestro ou havia implicações políticas? A perspectiva de tortura me deixava revoltado... Então um cidadão como eu, que trabalhava honestamente, pai de família sério e dedicado, tinha que passar por tudo aquilo, meu Deus?! Deus, aliás, não podia ter nada a ver com aquilo... Era coisa de homens, políticos, rebeldes, inconsequências do poder.
-         Ora, ora, se não é o meu maninho. Quem diria que a gente ia precisar se encontrar nestas condições, não é? – o homem tirou os óculos e se aproximou do quebra-luz ligado, ao lado da poltrona.
Aquela voz, a cicatriz no nariz, só podiam ser dele. Absurdamente, minhas suspeitas se materializavam ali, na minha frente. Minha surpresa naquele instante me levou a sentir que eu estava amarrado à poltrona.
-         Jandir. É, eu devia saber. Que é que você quer de mim? – tentei parecer forte.
-         Calma. Vamos conversar um pouquinho... Não quer conhecer a história da nossa causa primeiro? Você precisa se politizar, “maninho”...
-         Seja lá qual for, não me interessa. Só quero sair daqui e cuidar da minha vida. Não vou me envolver com suas ideologias. Faça um favor a você mesmo e me solte!
-         Muito apressado – o tom era sarcástico. – Por mim, você nem estaria aqui, mas tenho que servir a nossa causa: meu grupo precisa de certas informações e achou que seria mais fácil obtê-las se a coisa ficasse “em família”, compreende?
-         Você não sabe o significado desta palavra. Não devia nem pronunciá-la. E quer saber: não tenho informações de espécie alguma pra passar a vocês – eu o encarava com firmeza.
-         Tem, ah, tem sim. E o tempo de dizê-las esgota amanhã, ao meio-dia. Você vai ter a noite toda pra refletir. Pense em Verena, nas crianças, por exemplo. Uma família tão “linda” a sua...
-         Você não ousaria tocar neles, seu porco! Ou eu...
-         Boca fechada, “doutor” Caio! As exigências quem faz somos nós. Amanhã mesmo a gente vai invadir alguns prédios da região... E no próximo sábado, estaremos prontos para a “sua”... Fundação. Eu garanto. Até amanhã – ele sorriu ironicamente e saiu.
Um dos homens chegou a erguer o braço para me bater, mas o outro o segurou. Saíram, e ouvi trancarem a porta pelo lado de fora. Um temor profundo tomou conta da minha mente quando comecei a pensar no que poderiam fazer a minha família. Meu irmão estava obcecado pela guerrilha. Nunca imaginei que pudesse liderar uma operação daquelas. Verena tinha razão: ele tinha estado no noticiário por diversas ocasiões. Eu tinha que arranjar um modo de dissuadi-lo do que pretendia fazer. Pelo menos, deixar a mim e a Verena em paz.

(In: Pérolas de Amador - César Pavezzi)

domingo, 5 de junho de 2011

DEDOS DAS MÃOS (Parte I)

Mais dia, menos dia, eles iam me pegar. Derramei café na toalha da mesa pela terceira vez naquela semana. Verena me chamou a atenção de novo:
-         Que é que ‘tá havendo, hein?! Você anda muito tenso...
-         ‘Tô preocupado com uns problemas da Associação...
-         Ah, não! Essa “bendita” Associação outra vez. Vê se desliga um pouco. Desse jeito você não vai nem aproveitar suas férias direito – lembrou ela.
-         ‘Tá, ‘tá certo. Tem razão, acho que a viagem vai ajudar...
-         E aí? Já acertou os detalhes todos? Você sabe que eu ainda tenho que preparar a roupa das crianças e deixar as contas em dia... Não dá pra cuidar de outras coisas.
-         Vou comprar as passagens hoje mesmo. Na segunda, a gente embarca. Fique tranquila.
Tranquila... Tranquilo, era como eu gostaria de estar. Eu já tinha alertado o pessoal da Associação por diversas vezes: aquela situação era inadmissível. Se continuasse daquele jeito, ia acontecer uma tragédia...
Eu trabalhava numa Instituição Pública muito conhecida na região. Todo o espaço físico que ela ocupava nos arredores da cidade representava, naqueles tempos de tensão política, um excelente ponto estratégico. As manifestações de insatisfações, coordenadas por pequenos grupos fortemente armados, vinham aumentando de dimensão e amplitude. Em breve, a guerrilha ia se tornar constante na região... O interior não ia ficar isento de ser contagiado pelas tensões e conflitos sociais que assolavam as grandes cidades.
Um pânico, ainda que moderado, começava a se apoderar das cabeças mais bem informadas do lugar. Nós, da Associação de Funcionários, tínhamos discutido o assunto nas várias reuniões que ocorriam na época.
O que era inadmissível, repito, tinha a ver com o fato de que a Fundação Educativa, onde nós trabalhávamos, contava com somente dois vigilantes no final de semana. Dois vigias que não conseguiam, logicamente, rastrear a área toda, enquanto estavam de plantão. Reforçar a vigilância, pela segurança do local, era fundamental. Nem os pequenos furtos ocorridos podiam ser evitados, justamente por não se contar com um contigente maior de guardas. E agora, com a perspectiva de uma invasão da guerrilha, essa necessidade se tornava mais e mais premente.
Eu trabalhava como Relações Públicas, na Fundação, e bem por isso, fui indicado como secretário da Associação. Nas reuniões da entidade, somente o Presidente, eu e mais quatro representantes participávamos. Nós éramos os únicos, além do Diretor da Fundação, que sabíamos sobre a falta de seguranças existente no lugar. Aliás, preocupado ao extremo com as consequências perigosas que a situação pudesse acarretar, eu também já havia feito sugestões ao Diretor sobre a necessidade de reforçar a vigilância, contratando novos guardas.
-         A gente sempre trabalhou bem com meia dúzia de homens nesse serviço – explicou ele. – A comunidade nem se preocupa em checar se temos poucos ou muitos guardas na Fundação... E o sigilo, quanto a isso, já lhes dá uma certa segurança.
-         Mas, senhor, um dia esse sigilo pode ser quebrado...
-         Não acredito. Só eu e os senhores da Associação sabemos, com certeza, a exatidão dessas informações. E creio que são de absoluta confiança... Ou não são? – tinha a testa vincada e seu tom beirava a ironia.
-         Claro, senhor. Quer dizer que não existe nenhuma possibilidade de novas contratações?
-         Não. E compreenda que, num momento político como esse, não há condições de abrir concurso, seleção ou o que quer que seja. Chego a pensar se não é fantasia dos senhores, esse medo todo... Se me der licença, tenho processos para verificar e preciso ficar à vontade – ele se levantou e começou a caminhar em direção à porta.

-         Caio, ei, Caio! Parece que ‘tá dormindo sentado, homem – Verena me trouxe de volta ao presente. – Você vai ou não vai comprar as passagens?
-         Tem razão, amor. Já estou indo, já estou indo – peguei o paletó e fui saindo.
No caminho para o Terminal Rodoviário, continuei a refletir. Eu tinha um irmão que havia sumido por anos da cidade, com umas ideias políticas meio atravessadas. Era um revoltado e sempre me dava um arrepio na espinha quando imaginava em que ele poderia estar metido, diante daquelas manifestações de crise que vinham ocorrendo. Eis a síntese do meu medo: Jandir sabia que eu trabalhava na Fundação e que conhecia determinadas informações de caráter altamente confidencial. Mesmo sendo meu parente, sei que o mesmo faria qualquer coisa pela causa que defendia. Verena comentara comigo, por diversas vezes, que ele tinha aparecido na televisão como suspeito de liderar um dos grupos guerrilheiros que agiam no interior do Estado. Que, apesar da barba e dos óculos, ela pôde perceber quem era pela pequena cicatriz que viu no nariz dele. Achei que ela fantasiava, depois me dei conta que eu é que não queria acreditar.
-         Obrigado – agradeci pelo troco ao rapaz da agência, pegando as passagens.
Aquela viagem talvez me tranquilizasse. Em certos momentos, eu pensava estar ficando paranoico, com todas essas desconfianças. Mas, se meu irmão estava metido nestas agitações e conflitos, logo eu seria procurado. Eles iam me pegar, tinha absoluta certeza. Afinal, eu atuava no interior do melhor ponto estratégico da região. Através de Jandir, era fácil me localizar. Não, não. Não era paranoia minha. O retrovisor começou a me mostrar que minhas conclusões tinham fundamento. Alguém me seguia e já fazia dez minutos.
Em casa, enquanto conversava com Verena, olhei pela janela do quarto e vi o carro parado, com dois homens barbudos, na esquina. Prevendo o inevitável, resolvi expor tudo a minha mulher e traçar um plano de fuga.
-         E você vai ficar na cidade, Caio?
-         Por enquanto, meu amor. Eu vou dar um jeito de despistá-los e encontro vocês, na semana que vem.
-         Nada disso. Eu não vou sair de férias tranquila, tendo que esperar a solução desse problema... Você vai com a gente.
-         Você não entendeu. Não sei a dimensão do perigo que isso pode representar... As crianças e você têm que ficar em segurança. Faça exatamente como eu orientei. Pelo amor de Deus, Verena! – eu já estava entrando em desespero.
Ela me olhou assustada e moveu a cabeça em concordância. No outro dia, domingo, quando pôs nossos filhos no carro, pude ver duas lágrimas discretas rolarem de seus olhos. Os homens continuaram na esquina por toda a noite e, como não saíssem em perseguição ao nosso carro, concluí que estavam interessados em vigiar a mim.
Não saí o dia todo e, à noite, Verena me ligou. Disse que estava tudo bem, mas que sentia medo do que pudesse me acontecer. Eu a tranquilizei e reforcei a necessidade de que pegasse o ônibus na segunda. Sozinho, havia mais chances de me safar daquela perseguição.
O plano era sair pelos fundos, driblando os “caras” da esquina, pegar um táxi e me esconder, por uns dias, na chácara de um amigo. Depois, ele me levaria clandestinamente na sua camionete até a cidadezinha mais próxima. De lá, eu tomaria o ônibus para o litoral, onde encontraria minha família. Quando as férias acabassem, com certeza a polícia já teria interferido na ação do grupo que tentava me cercar.
Deixei a luz do banheiro acesa para que pensassem que eu ainda permanecia na casa e me arrastei da porta da cozinha até o muro do vizinho. Na rua de trás do meu quarteirão, comecei a me angustiar com a demora do táxi. Vi os farois brilharem, ao dobrar a esquina, e me animei. Não era o táxi e eu fui vendado e amarrado pelos dois homens que saltaram do carro. Tentei berrar, mas logo senti uma picada no pescoço e tudo apagou.

(Mais um conto de minha autoria extraído do livro: Pérolas de Amador - César Pavezzi)

DEDOS DAS MÃOS (Parte I)

domingo, 29 de maio de 2011

CAUTELA NAS RELAÇÕES SOCIAIS E RESERVA EM CERTOS ASSUNTOS

Tenha cautela quando se relacionar com os outros
(Epicteto, filósofo latino)

         Quando você se relaciona socialmente com outras pessoas, podem acontecer duas coisas: ou você se adapta à maneira de ser delas ou faz com que se adaptem à sua. É como encostar um pedaço de carvão apagado em outro que está em brasa: ou o primeiro apaga o segundo ou este acende o primeiro. Como o risco é grande, seja prudente quando se envolver em relacionamentos pessoais, até mesmo – e em especial – quando se tratar de relacionamentos casuais e despreocupados.
         A maioria de nós ainda não desenvolveu firmeza suficiente para direcionar os companheiros para o nosso próprio caminho, de modo que acabamos sendo levados pela multidão. Nossos valores e ideais ficam imprecisos e contaminados. Nossas resoluções se desestabilizam.
         É difícil resistir quando amigos ou companheiros começam a falar com muita segurança e ímpeto. Se somos pegos desprevenidos quando eles abordam assuntos pouco dignos, ficamos envolvidos pelo ritmo do ambiente social em que estamos. É da natureza da conversa que seus múltiplos significados, insinuações e motivações pessoais sucedam-se com tal rapidez que possam, de um momento para outro, desviar-se para direções não recomendáveis, aviltando todos os que dela participam. Sendo assim, enquanto os sentimentos sábios não se fixarem bem em você, transformando-se em instinto, e enquanto você não tiver adquirido uma certa capacidade de autodefesa, escolha com cuidado as suas companhias e controle o rumo das conversas de que participar.

Nunca discuta assuntos importantes displicentemente
(Do mesmo Epicteto)

         Tenha o cuidado de não discutir displicentemente, sem seriedade, assuntos que são de grande importância para você com pessoas que não são importantes para você. Agindo assim, o valor do conteúdo desses assuntos é esvaziado e você debilita seus propósitos. Isto é especialmente arriscado durante os estágios iniciais de alguma tarefa ou compromisso.
         Certas pessoas banqueteiam-se como aves de rapina em nossas idéias. Sentem-se no direito de, com grande jovialidade, interpretar, julgar e distorcer à vontade aquilo que é fundamental para você, e com isso seu ânimo fica abalado. Deixe que suas idéias e planos amadureçam antes de exibi-los para os contestadores e depreciadores.
         A maioria das pessoas só sabe como reagir a uma idéia atacando seus pontos fracos e não identificando seus méritos potenciais. Procure ser mais reservado para que seu entusiasmo não se dissipe.

(Textos extraídos do livro: A Arte de Viver, versões de Sharon Lebell.)

sábado, 21 de maio de 2011

LEMBRANDO A CANÇÃO (Parte final)

Há três semanas, depois de quase haver esquecido a “tal”, fui visitar uma velha tia, em Ouro Preto, e acabei encontrando com essa advogada. Foi naquele final de semana que eu voltei atrasado e acabei levando bronca por não fazer o programa de domingo...
- É, desculpa mais besta aquela de dizer que não havia encontrado passagem, que não tinha mais ônibus. Eu logo sabia que tinha mulher no meio. – tinha um ar de repreensão.
                   Foi o melhor encontro da minha vida... Passeamos pelas cidades históricas, conheci detalhes incríveis de Minas. Imagine que havia um bar, que nós visitamos na madrugada de sábado para domingo, cujo proprietário era apaixonado por poemas simbolistas e ficava-os recitando a noite toda, de mesa em mesa. O ambiente, à luz de velas e bastante rústico, era perfeito para a inspiração do homem. E esse foi só um detalhe das coisas gostosas que curtimos juntos...
- Quer dizer que você esteve fazendo este mistério todo porque queria, discretamente, proteger a reputação da loira... Como é mesmo o nome dela?! – interessou-se Fred, num tom de malícia.
- Calma, amigo. Não nos dissemos os nomes. A gente se tratou por “advogada” e “jornalista” durante todo o tempo. E, acredite, eu achei esse jogo muito excitante. Com tudo o que a gente ‘tava vivendo, que importância tinham nomes, apelidos, sobrenomes?!
                   Pois bem, nós não tínhamos ido até Belo Horizonte ainda e só chegamos lá no domingo á noite. É engraçado como quando você está envolvido com uma situação, você se esquece de outros compromissos... Ela era muito atraente e nosso papo, interminável. Um assunto puxava outro e creio que só não falamos de nosso passado. Não sabia de onde aquela mulher vinha, mas em vários momentos tive a sensação de que já a conhecia há muito tempo. Quando entramos no apartamento, fiquei admirado com o conforto e a sobriedade de estilo. Perguntou se eu queria tomar um banho, enquanto preparava alguma coisa para o jantar. Mostrou-me as dependências do lugar, me indicando o banheiro.
- Vamos, doutor Plínio, conta logo por que essa mulher ‘tá te perturbando tanto. – interrompeu Frederico, ansioso. – Se for pra dizer que transou com ela, nem precisa continuar...
- Aí é que está o segredo: não transei... Não fomos pra cama. E eu já digo por quê.
                   A ducha me pôs a pensar como tudo estava sendo tão incrível. Tinha percebido que ela morava sozinha, devia ser solteira e independente. O tipo de mulher com quem todo homem sozinho gostaria de se envolver... Usava um roupão de seda quando me entregou o copo com uísque e me disse que também ia tomar banho. Sentei-me no sofá da sala, ouvindo uma música suave e relaxante que tocava. Som de sax era realmente muito sensual naquela ocasião. Foi quando percebi alguns porta-retratos numa estante e resolvi me aproximar para ver os rostos que eram caros à ela. Um deles tinha uma senhora com a moça, em idade adolescente, nos braços. Senti um choque emocional naquela hora... A senhora era a minha mãe! E tive a confirmação da coincidência quando observei a dedicatória no canto inferior: “Para minha princesa, com carinho. De sua mamãe: Marta”.
                   Fui tomado de horror, uma espécie de pânico crescente, que me fez afastar das fotos cada vez mais. Corri até o quarto, peguei minhas coisas e nem me despedi. Minha “irmã” continuava no banho. A possibilidade de aquela coisa execrável chamada incesto ter acontecido, já me deixava com nojo de mim mesmo. O resto, ou a continuação de tudo, são as chamadas insistentes dessa garota, querendo me ver... Talvez até esteja apaixonada.
- Você tem certeza disso tudo? – espantou-se Fred, sério.
- Claro que sim. Aliás, ela tem muita coisa na expressão que lembra minha mãe... Depois daquilo, venho refletindo e me lembrei que entre as fotos deu pra reconhecer o homem que estava com minha mãe na cama, quando eu tinha sete anos. Minha irmã, Fred, calcule...É isso o que ‘tá me atormentando. Bonita, inteligente, mas filha da minha própria mãe.
- ‘Tá certo, ‘tá certo. É uma situação complicada, mesmo... Mas você já pensou que talvez ela nem sonhe que você exista? E que depois de tantos anos da morte da sua mãe, seria até uma boa ela saber que tem um irmão, ou meio-irmâo? – sugeriu ele, tentando me tranquilizar.
- Aí é que está: se ela não sabe nada sobre mim, será que vai acreditar na coincidência?
- Sabe, Piti, posso entender que você tenha vergonha de ter sentido desejos por sua própria irmã. Agora, não querer dizer a verdade sobre tua história pra ela por medo, isso eu não entendo, não. – disparou, com franqueza. – Vamos lá, meu irmão, encara essa de frente... Já imaginou: você tem uma irmã, cara? Isso é lindo. Ou não é?
- Não sei... Preciso pensar mais... Analisar.
- Bom, vamos indo que já está na hora. Depois a gente fala mais sobre isso.
- É... É isso aí.
                                               *       *       *

                   Fui procurar um analista, no dia seguinte. Coisa que eu devia ter feito há muito tempo. A primeira sessão foi aliviante e me convenci que tinha dado um grande passo para melhorar meu convívio comigo mesmo. A “tal” loira não ligou mais, mas decidi falar sobre minha meia-irmã ao psicólogo. Ele era um profissional bastante consciente do trabalho que fazia e me proporcionou descobrir que, em verdade, eu nunca tinha perdoado minha mãe pela “traição” a meu pai. Minha identificação com a figura de papai me encheu de recalques com relação àquele lance da infância. Era como se eu próprio houvesse sido traído, daí o ressentimento dirigido à velha. Ressentimento este que estava sendo transferido para o que representava a figura da minha irmã. Fruto da traição de minha mãe com outro homem, essa moça não cabia na estrutura das minhas relações de afeto.
- Mas ela não tem nada a ver com as decisões que tua mãe tomou, Plínio. – observou Fred, quando comentei as descobertas que vinha fazendo, graças à terapia.
- Superficialmente, eu sei. Mas preciso trabalhar melhor essas idéias. Preciso de tempo... Aliás, estou me sentindo mais preparado para entender tudo isso.
                   Um dia, conversei com a secretária do meu analista, enquanto esperava. Ela estudava psicologia e me deixou encantado com o desembaraço e a simpatia durante o nosso papo. Depois de um tempo, fomos jantar juntos e passamos momentos muito agradáveis. A relação com o último namorado tinha sido meio conturbada, pois ela detestava tipos machistas, ainda que tivessem cara e corpo bonitos. Ia se formar naquele ano e acabou me convidando para um almoço em família, no domingo próximo. Fred estourou de rir, quando soube.
- Almoço em família, é? Sei. Depois o pai vai insinuar um noivado, compromisso, aquelas coisas...
- Deixa de ser apressado, cara. E quer saber do que mais: acho que estou até precisando disto. Essa coisa de família, reunião de parentes, conhecer os pais, me agrada. – resolvi.
- Bom, tem gosto pra tudo. Você é quem decide o que fazer da tua vida.
- Se você quiser, pode vir com a gente. Quem sabe se ela não te apresenta uma irmã? – sugeri, num tom de ironia.
- Engraçadinho... E por falar em nisso, já se decidiu a procurar a tua?
- Não, ainda não. Tenho pensado muito, acredite. Depois, ela não me ligou mais...’Tô achando esquisito.
- Também, depois de todas as descartadas que você deu. Agora é a sua vez... E quer um conselho: não demore muito mais.
                   Eu voltei ao estúdio com aquela sensação de desconforto a me incomodar.
                                               *        *        *

                   Cheguei em Belo Horizonte emocionado e cheio de tremores adolescentes, que há muito não sentia. Sem avisar, não tinha ninguém me esperando. O porteiro do prédio disse que a senhorita Lisandra estava no tribunal. Estava atuando como advogada de defesa num caso muito difícil.
- Mas, como é o nome do senhor?
- Plínio... Por quê? – estranhei a curiosidade do homem.
- Acho que ela estava praticamente esperando a sua visita... Parece muito feliz por saber que tem um irmão como o senhor. Tem falado muito sobre isso.
                   Nem esperei que ele continuasse. Então ela já sabia de tudo. Parei em frente ao prédio do tribunal, mas não consegui vaga para estacionar. Um tanto ansioso, quase atropelei um gari que passava naquele instante. Tive que deixar o carro a várias quadras dali e corri até chegar na porta da sala de audiências. Entrei no exato momento em que o juiz proclamava a sentença. O réu foi considerado inocente.
                   Quase empurrei as inúmeras pessoas que cumprimentavam Lisandra pelo bom desempenho. Quando nossos olhos se encontraram, começamos a chorar e nos abraçamos. Ninguém podia imaginar que eu a estava abraçando por algo muito mais importante do que uma brilhante defesa.
(Este conto faz parte do livro: PÉROLAS DE AMADOR, de minha autoria - César Pavezzi)

domingo, 15 de maio de 2011

LEMBRANDO A CANÇÃO (outro conto meu)


                   Mais uma noite cheia de participações pelo telefone:
- Quer ouvir qual sucesso?! – perguntei, pela quadragésima vez (se não me engano).
A voz do outro lado era divertida, mas ao mesmo tempo, ansiosa. Queria uma música agitada, justificando que a noite estava muito linda. Fiz sinal para o técnico soltar o som e me despedi, como sempre acontecia.
Enquanto a música rolava, fiquei olhando o céu pela vidraça da sala, ao lado do estúdio. O programador falou comigo:
-    E aí? Preocupado?
-                                                    - Um pouco. Fico me perguntando se não dei bandeira demais, Fred... Essa garota ainda vai me fazer perder o emprego.
-                                                    - Ih, que papo é esse?! Você tem sete anos de casa, cara. Não tem que se preocupar com isso, não. Fica frio. Só acho que você tem que tomar cuidado numa próxima... Sabe do que mais? Ela não vai ligar pra cá, não. Se ‘tá tão interessada em você, vai ter um mínimo de bom senso, antes de te perturbar no local de trabalho.
-                                                    - Aí é que está o problema: não a conheço tanto pra ter essa tua segurança... Tomara que não ligue mesmo. – eu tinha um sentimento desagradável de dúvida.
-                                                    - Bom, depois de trabalhar, a gente sai aí, tomar uns conhaques pra esquentar, e papear. Hoje ‘tá um frio dos diabos. – disse, esfregando as mãos.
-                                                    - ‘Tá legal. Vamos, que a música ‘tá no fim.
Menos de meia hora depois e aquela voz, meio rouca, quente, com o programa no ar. No ato, fiz sinal para Fred cortar tudo, sair do ar. Depois a gente inventava uma desculpa, um corte de energia, sei lá.
- É tão simples, você podia concordar em me ver... Um lugar tranquilo, só nós dois. Há muitas coisas pra gente conversar... – o tom era pausado, com uma certa dose de ironia.
- Tudo bem, mas ouça aqui: por que não liga pra minha casa?
- Você quase não para lá. Estou cansada de falar com sua secretária eletrônica... Então, onde a gente pode ir? – era uma intimação, percebi.
- Você está me prejudicando... Aqui é um local de trabalho. Liga pra minha casa no fim de semana... Eu preciso voltar ao programa.
- Se você quer assim. Domingo pela manhã. Um beijo. – e desligou, com a mesma suavidade de sempre.

*      *      *

                   Mesa de bar rotineira. Fred olhava para mim e na sua testa dava para visualizar: “E então?”.
- É, não adianta mesmo, né? A gente falou sobre um punhado de coisas, recordamos nossas farras, nosso começo no rádio... Mas sei bem o que você ‘tá com vontade de papear.
- Adivinhão! Olha, Piti, se você não tiver a fim de se abrir, vou entender... É que ‘tô te sentindo angustiado, pra baixo, cheio de preocupação por causa de uma mulher a mais... – ele tomou outro gole.
- Não é simplesmente uma mulher “a mais”, meu caro Frederico. A coisa é mais complicada do que você possa imaginar. – eu olhava para o copo e tentava encontrar na cor da bebida uma forma de contar a verdade.
- Então, ‘tá. Faz um tempão que nós somos amigos, eu nunca escondi nada de você... Essa história ‘tá me deixando muito curioso. Mas não é uma curiosidade de quem pensa ouvir pra fofocar ou fazer gozação, não. Talvez eu possa ajudar, fazer alguma coisa... Você ‘tá devagar esses dias, nem ir na festa dos disc-jóqueis você quis, ‘tá ficando nessa rádio onde a gente trabalha o dia inteiro... Que é que há, Piti? Vai se anular porque uma “perua” que você não quer, ‘tá pegando no seu pé?! – Fred se alterou um pouco.
- É, você ‘tá certo. ‘Tô fugindo de muitas coisas, sim. É pura fuga, pode crer... Reconheço que “pisei na bola” contigo também. Mas vou voltar a ficar numa boa, prometo. Não me leve a mal... Depois de domingo, eu resolvo tudo. Aí, me abro com você.
- Como é que é?! Quer dizer que tem hora certa pra confiar nos amigos, agora? Essa é nova!
- Calma, Fred. É tudo uma questão de tempo... Juro que é melhor você saber a história toda depois.
                   Ele jogou uma nota em cima da mesa e fez um gesto de despedida. Eu ainda fiquei por ali, observando as luzes da cidade e me sentindo impotente diante das coincidências fatais que envolvem os seres humanos.

*     *     *

                   No sábado, eu e Fred nos mandamos para o chalé do cunhado dele. A família tinha ido passar o inverno em outra cidade e cedeu as chaves do lugar.
- Nem pense que vou ficar aguentando essa tua “caretice” de depressão, não. – ele foi avisando, quando a gente se pôs a caminho. – Descolei duas “gatas” que são deliciosas... e inteligentes. Aliás, mulher burra na minha cama, nem rezando. Elas vão encontrar os “garotões” aqui, à noite.
- Você não perde o pique, hein, farrista! Desse jeito, até esqueço os problemas...
- Aí, “doutor” Plínio, assim é que se fala... È pra lembrar que Deus é grande e o descanso é sagrado. – tinha um ar de satisfação.
                   A tarde estava linda, com um sol maneiro de inverno. O carro era aconchegante, protegendo-nos do vento cortante nas árvores. A estrada tranquila me pôs a divagar... Aquele final de semana ia me livrar do nefando telefonema. A gente planejava voltar no domingo à noite. Eu, como sempre, ia direto pra rádio. O programa da noite me esperava. Livre daquela voz, adiando mais uma vez o encontro... Até quando? Até quando, Piti?
- Até quando, Piti? Ei, ‘tá me ouvindo, cara?! – era Fred, me trazendo de volta.
- Perdão, eu não ouvi mesmo. Que é que você quer saber?
- Até quando vai esse programa na madrugada?
- Fim do mês, eu acho. Bem, pelo menos na nossa mão... Depois, eles vão colocar o Dílson e o Nélio pra fazer... Por quê?
- ‘Tô cansado, rapaz. É um saco ter que trocar o horário de dormir... Além disso, ‘tava com uns projetos novos para a programação...Queria discutir com você, depois.
- Calma, Fred. É só me procurar e a gente conversa. Não quer me adiantar nada, agora?
- Não, vamos nos concentrar para o “programa” de hoje... Muito melhor. – e ele sorria, malicioso.

*      *      *

                   A minha expressão não deixava esconder nada. Pura decepção... É claro que Fred estranhou e me fez um monte perguntas. Diante da insistência dele, desabafei:
- Não consegui... É, em nenhuma das vezes. Nem na banheira, nem à noite, no quarto. Nem pela manhã, nem na piscina aquecida, nada. Queria saber? Pronto: já contei.
- Nadinha?!
- Não.
                   Ele ia estourar em gargalhada, mas se conteve. O carro rodava macio, na volta para a cidade.
- É sério, então, hein?! Olha, quer mesmo saber: a gente tem um tempo antes de ir pra Rádio. Vamos passar lá em casa, tomar uma sopa reforçada e você me explica tudo, direitinho. Ou vai querer adiar isto também? – tinha um tom meio desafiante.
-    Não, você ‘tá com a razão. É melhor mesmo me abrir com alguém, antes que eu estoure.
- Ótimo, é isso.
                   Enquanto ele preparava a tal sopa, eu justifiquei que sabia muito bem por que tinha falhado com a garota, no chalé. Era a maldita fixação na figura do telefone que interferia e estragava tudo.
- É, eu também já me frustrei, pensando em outra mulher...- admitiu, parando de cortar uma cebola.
- Pois é, dá pra você entender o quanto é duro pra mim. Mas isso não é o pior...
                   Passei a contar uma história muito antiga, de família, que Fred pouco ou nada conhecia. Minha mãe, quando eu tinha sete ou oito anos, separou-se de meu pai. Ele era bem mais velho do que ela e passou a procurá-la com menos frequência na cama. Eu adorava o jeito de intelectual bonachão do velho e não entendia por que minha mãe brigava tanto com ele. Um dia cheguei em casa da escola, sempre contente por ter coisas novas para contar e mostrar. Estranhei a porta da frente fechada àquela hora e decidi entrar pelos fundos. No corredor, ouvi gemidos profundos vindos do quarto de minha mãe e pensei, na minha inocência, que ela poderia estar passando mal. Quando alcancei a porta do quarto, só encostada, a fresta me mostrou que, em verdade, minha “progenitora” estava era se sentindo muito bem...
- Você quer dizer que havia um homem com ela?! – espantou-se Fred, sentando-se.
- E não era meu pai... Isto foi o mais triste pra mim.
                   Fiz uma pausa, enquanto tomava um gole de vinho, para depois continuar. Breve, meu pai descobriu o romance e, com dignidade e resignação, providenciou a separação. Foram meses de angústia e confusão para mim. É claro que preferi viver com meu pai. Mamãe me ligava, às vezes, e me visitava em duas datas, que ela achava importantes: meu aniversário e no Natal. Dez anos mais tarde, meu pai morreu e confesso que fiquei tentado a procurá-la... Mas meu senso de honra não me permitiu. É tão engraçada essa coisa de princípios, orgulho, dignidade.
- É, é uma coisa muito relativa – concordou Fred, mexendo a sopa.
                   Com o tempo, eu me acostumei a viver sozinho. Fiz minha faculdade e me tornei jornalista, graças ao incentivo de meu pai, que nunca descuidou da minha formação intelectual. Na festa da formatura é que começou o meu conflito com essas questões de princípio, moral e etc.
- Já sei, sua mãe te procurou pra te cumprimentar e pedir pra voltar a morar com ela? – arriscou Fred, cada vez mais curioso para saber o final.
- Não, o pior é que não. O lance foi outro...
                   Havia vários tipos de bebidas e pessoas na festa. Muita música rolando e, depois de certa hora, os casais começaram a sair do ambiente. Eu tinha sido mostrado a uma loira, estudante do primeiro ano de Direito e muito bonita. A gente começou a conversar sobre mercado de trabalho, perspectivas de futuro, essas coisas de quem vai iniciar a carreira. Não, não foi com ela que fiquei naquela noite, não. Foi com uma colega, que hoje trabalha na Rádio Cultura de São Paulo...
- A Joana Tales? – lembrou Fred, sorrindo.
- Essa mesma. Aliás, foi uma noite super gostosa, digna de dois sofridos formandos de Jornalismo...
                   Três anos depois que comecei a trabalhar na nossa Rádio (a gente ainda não se conhecia direito), uma noite eu fui fazer uma reportagem sobre um julgamento, em Campinas, e acabei passando o dia seguinte inteiro naquela cidade. Qual não foi minha surpresa ao perceber que a tal loira estava almoçando no mesmo restaurante que eu?!
- A mesma da festa de formatura? – quis confirmar Fred, ajeitando a mesa para a gente comer.
- Exato. Usava o mesmo penteado, tinha o mesmo ar charmoso e seguro daquela noite, e me reconheceu no ato...
                   Conversamos sobre o julgamento, descobri que ela não estava trabalhando em Campinas e que só tinha ido fazer umas compras. Quis insinuar um encontro, a sós, logo mais à noite, mas a mesma me disse que estava de partida para Belo Horizonte, onde morava. Um telefone na toalha de papel do restaurante e, momentos depois, eu ficava sozinho. Pensativo e ruminando a coincidência entre nós.
- Ela estava mais bonita? – quis saber Fred.
- Linda... Loira, mas sem exagero. Traços delicados, mas muito firme nas colocações que fazia... Simpática, sem ser vulgar. Enfim, uma pessoa muito agradável de se ver e ouvir.
                   Eu me servi da sopa de Fred e, enquanto esperava esfriar, continuei. Telefonei para a moça e, só quando teclei os primeiros números, cheguei a me tocar que são sabíamos sequer os nomes um do outro. A secretária eletrônica me fez deduzir que ela deveria ser uma advogada muito ocupada com o trabalho. E, talvez por segurança, a mensagem só repetia o número do local e o pedido para deixar algum recado. Tentei, outras vezes, meses a fio, e nunca consegui acertar um horário em que a mesma pudesse estar em casa.

(Leia a conclusão dessa história  na próxima semana. - César Pavezzi)

"O direito à literatura"(fragmento)

Apresentamos, de forma objetiva, a visão de Antônio Cândido, grande historiador, analista e professor de Literatura: (...) "Chamarei de...